A LÂMINA - 1969

Alumínio, aço inox, acrílico, ferro e sistema eletro-mecânico com movimentos sonoros e reflexão de imagens

10 Escultores Brasileiros de Vanguarda - Praça Roosevelt, São Paulo - SP

Arte na Praça Nossa Senhora da Paz - Rio de Janeiro

Bienal Brasil Séc. XX - São Paulo - 1994

Sólido Insólito - Vitória, ES

críticas, textos e depoimentos

DA SUCATA À LUZ DECOMPOSTA - HARRY LAUS. XI Bienal Internacional de S. Paulo – 1971 SALA ESPECIAL – “Novas Proposições”

Três proposições mecanizadas são a contribuição do escultor Maurício Salgueiro ao setor “Proposições” da XI Bienal de São Paulo: “A Lâmina”, “Acabamento” e “Curtição”. Nas duas primeiras, a proposta principal é o som, produzido pela chicotadas de uma lâmina de aço, quando se comprime o botão de um interruptor elétrico. A eletricidade também está presente na terceira escultura, a mais recente e original pesquisa do artista. Com ela, Salgueiro se afasta da deliberação sonora para o romantismo da cor, utilizada indiretamente pela decomposição do raio luminoso nas cores do arco-íris. O resultado é a dança de pequenas flores refletidas numa tela branca de nylon que gira. A participação do espectador neste trabalho também é indireta. Mas indispensável: só aparecem as flores luminosas quando alguém se desloca do outro lado da tela. “Curtição” dá um novo sentido à dinâmica da arte cinética, recorrendo a elementos exteriores para realizar-se integralmente. De início preocupado em refazer a figura (humana ou de animais) com o emprego das mais variadas sucatas, Maurício Salgueiro elaborou em 1963 uma “Coruja” cujos olhos eram dois faróis de automóvel. Sem luz própria mas já contendo a valorização dos reflexos sobre a superfície convexa e lapidada do vidro, essa escultura pode ser considerada o ponto de partida para a “Curtição”. Entre uma e outra desfilam dezenas de trabalhos, todos marcos de uma carreira movimentada e brilhante, pontilhada de prêmios e exposições no Brasil e no exterior. A luz ganha relevo com a utilização de sinais de trânsito, luzes pisca–pisca, lâmpadas de luz fria colorida; o som entra em ação pela integração de buzinas, sirenes, autofalantes e lâminas vibráteis nas esculturas. A sequência é lógica, coerente e progressiva, compreendendo o uso de meios mecânicos cada vez mais inovadores. A grande metamorfose na carreira de Salgueiro começou logo após seu regresso da Europa, onde passou dois anos como premiado no Salão Nacional de Belas Artes, em 1960. Foi a partir de então que rompeu com a escultura figurativa em materiais da tradição. E dizemos começou porque ele, desde essa época, não cessou de renovar-se. Analisando-se a última década de sua produção, pode-se afirmar que Mauricio Salgueiro é o escultor brasileiro mais inquieto e inventivo, trabalhando sempre dentro do espírito de nossa época com propostas de luz, som e movimento que o colocam, com realce, no conjunto atuante da arte de vanguarda mundial.

A BIENAL DE PARIS E A PRAÇA ROOSEVELT - FREDERICO MORAIS. A Poética da Máquina Cap. V/1

Em 1965, participa de Bienal de Paris, com duas esculturas da série “Urbis”. Estruturas de ferro dotadas de som e luz, as duas esculturas provocaram inquietação nos dirigentes da Bienal. Conta-se que elas quase foram impedidas de ser expostas, devido à sua sonoridade estridente, que reavivava nos franceses as lembranças traumáticas da guerra. Decidiu-se, então, expô-las em um espaço fechado, com isolamento acústico, o que foi visto como uma forma disfarçada de censura estética, afastando-a do público. Notícia divulgada pelo Jornal do Brasil, em 13 de maio de 1966, diz que a polícia francesa tentou proibir o funcionamento da sirene de sua obra, alegando que “os parisienses já haviam sofrido demais durante a guerra com ruídos dessa natureza”. Os críticos Georges Orley (Studio International) e Pierre Restany (Domus) elogiaram o envio de Salgueiro. O primeiro comenta suas esculturas ao lado das obras dos artistas alemães Günther Uecker, Heinz Mack e Otto Piene, do Grupo Zero, dizendo que “som e luz encontram-se envolvidos em rígidos planos de escultura em metal”, enquanto Restany afirma que “as montagens de objetos com elementos audiovisuais integrados de Maurício Salgueiro mereceriamm figurar entre os premiados”. O episódio da Bienal de Paris foi o primeiro de uma série de incidentes que marcariam a trajetória das esculturas sonoras de Salgueiro, que sempre despertaram no público, na crítica e nos dirigentes culturais, um misto de atração e repulsa. O que significa dizer, também, que ninguém permanece indiferente às suas criações plurisensoriais e interativas. O mais grave desses incidentes ocorreu na Praça Roosevelt, São Paulo, em 1970, durante a mostra “10 escultores brasileiros de vanguarda”, na qual sua escultura “Acabamento 2B”, do mesmo ano foi quase totalmente destruída. Consistia a escultura em uma lâmina de aço medindo 320x120x120 cm, presa a um motor industrial, localizado na parte inferior da peça e que se podia ver através do acrílico transparente. Acionado o motor, a lâmina se movimentava em ondulações viris, gritando, uivando, gemendo. Fazia tanto barulho que cerca de 40 moradores da vizinhança da praça, em sua maioria mulheres, armados de cabos de vassoura, canos de ferro, pedras e outras armas improvisadas atacaram com violência a escultura. A prefeitura de São Paulo, responsável pelo evento, pagou os custos de reconstrução da peça e o artista, em reunião com os moradores, estabeleceu um novo horário para seu funcionamento: das 17 às 19 horas. Salgueiro considerou o acordo positivo mas, ainda assim, observou: “Aquelas pessoas que apedrejaram a escultura, quebrando a caixa de acrílico, arrebentando os fios da instalação e amassando a lâmina de aço, agiram de forma preconceituosa contra uma obra de arte. Um morador da cidade não esmurra ou apedreja sinais luminosos, usando-os como válvula de escape”.

PARTICIPAÇÃO OU REJEIÇÃO? - CLARIVAL DO PRADO VALLADARES. Jornal do Commercio, 13 dezembro 1970

Outro dia contei a história de Tio Juca da Bahia que soube inventar um autêntico meio de participação, entre o observador e o objeto, pondo no visor de seu próprio esquife um espelho, ao invés de um simples vidro transparente. Leitor amigo me procurou e pediu consideração para o que ocorreu numa recente seleção de obras da Pré-Bienal de São Paulo, destinadas a figurarem na representação brasileira da vindoura XI Bienal, isto é, a Internacional. Não se trata – graças a Deus! – de caso de morte, mas se filia ao elenco dos casos de espelhos. O escultor Maurício Salgueiro, de cujo mérito ninguém duvida, nem como profissional de formação e nem tampouco como experimentalista, das propostas do vanguardismo, achou de enviar para a dita Pré-Bienal uma construção, dessas que não se sujeitam à qualquer das categorias convencionais. Não era pintura, nem escultura, nem teatro e nem cinema, mas poderia ser, sob o critério crítico, tudo isso por inquestionável correlação estética implicada à denominada arte de participação. Era uma caixa de dois metros e meio de altura, por um de fundura, guardando no meio um enorme espelho feito de uma simples folha de aço inoxidável. Era agradável ao distinto observador espelhar-se diante daquela superfície, perfeita e bem polida. Ao lado, um botão de campainha incitava o curioso a um leve toque e de repente a enorme e flexível folha de aço – (o espelho) – dobrava-se com violência, para frente e para trás, produzindo aquele som agudo, demorado, de uma lâmina cravada no infinito. Acompanhando o grito metálico, pior do que sirena e assovio de jato, a imagem do observador obedecia às regras da concavidade e da convexidade. Quem era gordo ficava magro. Agradecia. No instante seguinte engordava mais ainda, e então... Quem era feio tornava-se por um instante razoável, mas no instante imediato a realidade lhe devolvia tudo em dobro. Conheço pessoas que evitam se mirar em para-lama de automóvel só para não se ver como a muitos parecem, quanto mais submetidas à experiência de Maurício Salgueiro, talvez mais próxima da dialética do realismo - excessivo que do realismo - mágico. Como invenção e construção, pode-se afirmar tranquilamente que teria sido a mais adequada representação brasileira, no vindouro certame internacional da XI Bienal de São Paulo. Haveria de ser, pelo menos, uma maneira de devolvermos aos forasteiros uma máquina de fazer imagens. Infelizmente o júri fez um julgamento subjetivo, isto é, de acordo com a sua própria reflexão, e o resultado foi a recusa daquela caixa de realismo – excessivo. A Comissão que rejeitou o Espelho – mágico de Salgueiro estava constituída de grandes nomes da crítica de arte internacional para o especial compromisso de selecionar valores nacionais. Esta circunstância complica as pretensões do artista, porém quando se analisa o biotipo de cada um dos meritíssimos juízes, logo se percebe que Salgueiro não poderia obter, jamais, aprovação de sua máquina. Imagine-se o argentino Romero Brest, de quase dois metros e não sei quantas arrobas, truculento e calvo, por um simples golpe de espelho transfigurado em longilíneo, astênico, leptossômico, esquizotímico – tudo como quisera ser – e quase no mesmo instante, sob a denúncia do grito metálico, de volta à realidade. Agora se ponha em mente a figura de Hugo Auler, crítico de arte de Brasília, igualmente calvo porém magricela transformado por posição de Salgueiro no biotipo e no colesterol do argentino Brest. Em terceiro lugar vem o paulista Geraldo Ferraz, exemplo biotipológico do brevilíneo picnico, tão gordo que de tempos em tempos lembra o modelo esferoide do cubista Jacques Villon (1875-1963), descoberto em um dono de restaurante de Puteaux. Subitamente, vê-se corrigido pela convexidade da caixa – mágica, quase na simpatia do saudoso Tyrone Power; mas o perverso aço logo se faz côncavo e o ilustre crítico ciclotímico não poderá jamais perdoar o espelho. Por fim, aproxima-se do fatídico aparelho o muito estimado Marc Bercowitz. Ele não é nem gordo, nem magro, é do tipo atlético, tabela 2, na classificação de Kretschmer. Seu perigo é menor. Resiste bem ao côncavo e ao convexo. A transfiguração escolhe o seu rosto, agora emoldurado de cabeleira e barba doiradas. No momento em que o espelho se achatava, Marc desaparecia e se via um canteiro de margaridas. Quando a folha de aço revertia, aparecia um majestoso girassol. Mas, do ponto de vista da crítica de arte, girassol por girassol todos preferem os de Van Gogh. Por fim o espelho – mágico de Salgueiro acabou sendo recusado como arte de participação. Contudo conseguiu abrir um novo capítulo, o da arte de rejeição. Obs.: A coordenação da XI Bienal Internacional de São Paulo convidou o artista plástico Maurício Salgueiro para participar desta XI Bienal na Sala Especial "Novas Proposições" com apresentação do crítico Harry Laus

Exposição Reinventando o Mundo - Museu da Vale, Vitoria do Espírito Santo, 2013 - Franklin Espath Pedroso, Jorge Emanuel Espinho

Reiventando o Mundo Arte e Tecnologia Incontornável paradigma dos dias atuais: a realidade tecnológica e virtual em que vivemos submergidos transformou radicalmente todos os aspectos da nossa vida, nas suas principais e mais diversas vertentes. Se o advento da máquina e da automação prometia libertar o homem de funções meramente mecânicas e funcionais, permitindo-lhe dedicar-se a tarefas eminentemente lúdicas e enriquecedoras, todos somos, hoje, testemunhas da dependência total – e muitas vezes absurda – que o meio tecnológico e especificamente a internet imprimem e assumem no cotidiano. Esse pretenso efeito automático, de nós bem conhecido, manifesta-se radicalmente no dia a dia: na forma como nos comunicamos e exprimimo-nos, na maneira como acedemos e criamos a informação, na relação com o mundo e com o tempo, no trabalho e no lazer, no aparecimento de relações estritamente virtuais, em tudo o que somos e nos rodeia. Estruturas de informação e comunicação que eram, até há bem pouco tempo, perfeitamente válidas e comuns foram irremediavelmente ultrapassadas por uma cultura global de imediatismo, simultaneidade, acessibilidade e exigência. Não discorreremos aqui sobre o valor do que terá sido, talvez, para sempre perdido. Olharemos, antes, o presente, miríade de infinita luz tecnológica e virtual, que todos habitamos, indefectíveis e orgulhosos. O fenômeno da internet, advento total que trouxe à luz do tempo presente o acesso a vozes, contextos, realidades e memórias até então inescrutáveis – além de condicionantes de ordem geográfica, social, cultural ou política – expressa-se hoje de forma tão englobante e complexa que é difícil fazer dele um diagnóstico ou aproximação profundos. Destacaremos talvez a produção de conteúdos e sua fácil disseminação em rede planetária, como um dos maiores avanços da globalização na era da informação. Atualmente, são várias as manifestações sig- nificativas e seus resultados transformadores – com origens e efeitos de ordem política, cultural e social – que se originaram e alimentaram-se na web. Aqui, se a forma não faz o conteúdo, em muito o influencia e facilita. A rapidez, a eficácia de produção e a consequente difusão de temas e assuntos de natureza política, artística e cultural serão seguramente algumas das maiores conquistas da nossa era. O caráter expressivo, crítico e criativo – potenciado pela tecnologia infocomunicacional de que hoje dispomos – será um dos grandes modelos e padrões a influenciar, também, todo o tempo futuro. Mas aqui nos interessam mais em particular os artistas e suas obras: na qualidade de agentes criadores da vanguarda, utilizadores pioneiros e experimentais – e desde sempre – de todo e qualquer recurso mecânico ou tecnológico que possa revelar-se um instrumento precioso na sua expressão e criação artísticas. Serão, então, alvo da nossa atenção alguns dos mais interessantes criadores brasileiros da arte de pendor tecnológico. Pois foi precisamente no contexto das conferências Cyber-Arte-Cultura: a trama das redes, promovidas pela direção do Museu Vale, celebrando os seus 15 anos de atividade e que aconteceram em março de 2013, que surgiu o convite para que desenvolvêssemos uma orientação curatorial – e consequente seleção de artistas e respectivas obras – de recorte exemplificativo, mas abrangente do que foram, e são hoje, os principais agentes criadores da arte tecnológica no Brasil. Ao artista capixaba Mauricio Salgueiro foi reservado, logo de início um lugar de destaque na mostra, considerando o pioneirismo e a importância que o seu trabalho desde cedo assumiu no panorama artístico nacional e internacional, apesar de – e também contrariando – um estranho desconhecimento que persiste ainda hoje em relação à sua obra, inclusive nos meios artísticos e culturais brasileiros. Encontramos aqui um conjunto de 22 artistas e 37 obras – resultado de uma escolha bastante difícil – entre muitos outros que por diversas razões se viram impossibilitados de estar presentes. Importa reforçar que, no recorte temporal referido, muitos foram os criadores importantes que se serviram da tecnologia, mecânica ou digital, na sua ação criadora e produtiva. Apesar da excelente dimensão do espaço expositivo, seria fisicamente impossível incluir todos. Ficamos assim com uma mostra – entre outras possíveis – que julgamos representativa da arte tecnológica brasileira. Incluímos vertentes como a arte cinética e sonora, a videoarte e o mapping, a instalação e a bioarte, a robótica e a interatividade numa panóplia diversificada e exemplificativa, ruidosa e colorida, tão ao gosto dos tempos modernos. Os artistas aqui presentes são: Abraham Palatnik, André Parente, Angela Detanico & Rafael Lain, Chelpa Ferro, Eduardo Kac, Fernando Velázquez, Floriano Romano, Leandro Lima & Gisela Motta, Letícia Parente, Marcelo Moscheta, Mariana Manhães, Marssares, Mauricio Salgueiro, Milton Marques, O Grivo, Paulo Bruscky, Paulo Nen"idio, Paulo Vivacqua, Pedro Paulo Domingues, Rafael França, Regina Silveira e Sonia Andrade. PRIMEIRA SALA – ANOS 60 A 90 A cidade – pioneirismo, experimentação, crítica social A cidade cedo se revelou como a mais completa e complexa invenção do homem, berço de todas as descobertas e destino de todas as invenções, caldo profícuo e criador de todas as correntes e vanguardas, destino de todas as viagens em procura de enriquecimento financeiro ou cultural, pano de fundo escolhido para uma vida de possibilidades cumpridas e conquistas realizadas. Mas também, imediatamente, prisão dourada a encurralar e a reduzir o homem moderno, perdido numa corrida louca e circular rumo ao dia a dia – produtivo e escravizante, frenético e infinito – da dura e competitiva realidade urbana. Considerando a enorme onda contestatária e de contracultura que varreu na década de 1960 todo o espectro ocidental – à procura de uma alternativa a essa realidade do homem mecanizado e mero objeto, refém de correntes de produtividade e normalização impostas, de valores éticos, profissionais e culturais; e tendo em conta o contexto particular que o Brasil vivia na época – refém de uma ditadura feroz, particularmente durante os chamados anos de chumbo, entre finais dos anos 60 a meados da década de 1970 –, é imprescindível sublinhar aqui a atividade artística de alguns criadores que já nessa época apontavam caminhos, desbravavam conceitos e iniciavam um percurso – impensável para o homem comum – de inovação inventiva e artística com forte consciência e crítica política, social, ética, cultural. Para alguns, serviria a própria realidade urbana que os rodeava – no seu alto contraste de deslumbramento luminoso modernizado e ruidosa marcha mecanizada; de multidões (des)ordeiras perdidas no caos cotidiano mas também do acesso iniciático e aparentemente ilimitado a um admirável mundo novo de possibilidades, mecanismos e experiências por descobrir –, a cidade; como sumário criativo, inspirador e revelador, desse trabalho de apontar caminhos e descobrir amarras. Uma construção ainda inicial, mas firme e decidida, de uma obra e percurso pertinentes, atentos, inventivos, maravilhosos. Esses artistas se revelariam, muitos anos depois, visionários verdadeiramente privilegiados na sua releitura criativa, clara e incisiva, transformadora e paradigmática de uma realidade pós- -moderna dura e difícil. Uma realidade já claramente formatada num crescente e circundante domínio uniformizado: tecnológico e artificial, político e social. Um desafio crucial à individualidade, criatividade e liberdade; fundamentais condições para a plena existência do indivíduo no espaço contemporâneo. Mauricio Salgueiro nasceu no Espírito Santo em 1930, partindo aos seis anos para o Rio de Janeiro. Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes e aperfeiçoou seus estudos de escultura em metal em Paris e em Londres. Foi professor em várias escolas, institutos e universidades, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo; participou, a partir de meados dos anos 60, de várias bienais e salões de arte moderna, no Brasil e no mundo. Pioneiro da arte tecnológica no Brasil, as suas esculturas sonoras, luminosas e mecânicas logo incorporaram elementos da realidade urbana, como buzinas e semáforos, movimentos de marcha sincopada e ruidosa, e o uso de lâmpadas fluorescentes num jogo cromático e mecanizado de fascínio e beleza. Sempre interativos, seus trabalhos proporcionam ao espectador uma experiência profunda de expectativa e deslumbramento, através da brilhante reutilização e ressignificação de elementos do cotidiano, numa nova forma escultural e plástica, reflexiva e envolvente, de enorme valor artístico. Incluímos nesta mostra um conjunto representativo da produção do artista, num total de 10 obras. Elas representam alguns momentos significativos de um recorte de três décadas de produção, utilizando recursos tecnológicos que, se hoje nos parecem bem ultrapassados, eram absolutamente inovações naquela época. A Urbis II (1964), semáforo sonoro incoerente e aleatório, a confundir instruções num tráfego caótico e irritante; a Vênus androide I (1998), escultura mecânica cujos movimentos de marcha ruidosa aplicados a um arquétipo feminino de fertilidade e beleza – feito totem de aço frio – parecem falar da inalcançável distância que nos separa de um sensível primordial; a Poça (série Vazamentos, 1985), surpreendente hino a um masculino falhado e redundante, plástico e ôrganico, na sua avermelhada prisão oleosa, imponente e afirmativa; A lâmina (1969), enorme e ondulante folha de aço reflexivo, paródia meio descontrolada e barulhenta, ao espelho, nota breve de um ego destruído pela força mecânica que o imita, distorce e desfigura; a Urbis V (As vizinhas) (1965); em que aquilo que ali dizemos é escutado em outro lugar, sem que o saibamos e ao vivo, visionária referência crítica – e tão atual – a questões como a privacidade, o uso perverso da tecnologia, o poder controlador de um estado que espia seus cidadãos; e as várias Esculturas luminosas I, III, IV, VII e X (de 1963 a 2011), belas referências cromáticas de luz e cor aos enormes edifícios que habitam e habitamos – supremos e sublimes, imóveis e altivos –, os mais elevados e dominantes lugares das nossas populosas e caóticas cidades modernas. Destas destacaremos a Escultura luminosa X (1968-2011), em que o interior belo e confuso de fios e fichas coloridas é deixado a descoberto pelo artista, descoberta em simbólica revelação da vida interior – desordenada e obscura, revolta e conflituosa –, que alimenta e preenche o âmago vital de qualquer estrutura. Essa obra forte e metafórica, cheia de beleza e confusão – e também claramente remetente às enormes construções habitacionais dos grandes centros urbanos – reúne em simples e sedutora disposição essas duas facetas fundamentais da realidade tecnológica que nos rodeia: por um lado, uma exterioridade sedutora e funcional, bela e prática, disponível e aberta; por outro, encerra em seu interior a teia inescrutável de relações e sobreposições, contaminações e dispersão, que apenas percebemos assim: simbolicamente apresentadas numa obra de arte penetrante, significativa, sedutora e envolvente.... ...Talvez esse cosmos vivo de Palatnik represente, nesse ambiente expositivo, o ponto de fuga visual e simbólico, distante, mas desejado: o ambiente urbano complexo que fomos aqui construindo. A representação poética e ambiciosa de dimensões e vontades maiores escapam ao seu parco e ruidoso entendimento e pequenez. Pois na ensandecida vivência da realidade confusa e limitante da casa e da cidade, o homem procura ainda, no alto exterior, no que ainda não abarca nem compreende, um sentido maior para esse cotidiano acelerado e redutor. Algumas obras parecem descrever claramente esse débil estado à mercê da dura realidade urbana e doméstica (Salgueiro, França e Andrade), a procura de uma expressão/comunicação íntimas e autênticas (Parente e Bruscky), que contrariem o automatismo e a limitação – a regulação – impostos pelos meios e mecanismos então disponíveis (Palatnik, Salgueiro e Silveira). Pois na era da viagem à Lua e do progresso da ciência, da inovação tecnológica e da produção em massa e no meio de diversas restrições e convulsões de ordem política e social, os artistas procuravam, mais à frente e noutras enviesadas direções, diagnosticar uma sociedade febril e voraz, seus ritmos imparáveis e mecanizados de produção e consumo, a ausência de padrões de criação e liberdade pensados e aplicados à frágil e delicada – mas enérgica e expressiva –, escala humana.