URBIS II - 1964

Ferro com soldas autógenas, sinais de trânsito, buzinas, socorro elétrico mecânico e movimentos de som e luz

Salão Esso de Artistas Jovens - 1965

Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Primeiro prêmio

Coleção do artista

críticas, textos e depoimentos

Luminosas, Uivantes, Tátil-Olfativas e Pulsantes. Eis as esculturas de Maurício Salgueiro - Frederico Morais

‘Um percurso evolutivo da série "Urbs" – postes de madeira, esculturas lumino-sonoras, esculturas-neons, esculturas-máquinas, com lâminas uivantes, esculturas-pulsantes – vazantes, pias, tanques – evidenciando a confluência do visual-sonoro-tátil-olfativo, é o que Mauricio Salgueiro vai apresentar a partir de amanhã, no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, no Campo São Bento, em Niterói. Será esta a primeira vez que o público verá num único recinto esculturas representativas das várias fases das esculturas de Mauricio Salgueiro, mas sempre explorando coerentemente o binômio cidade/máquina. E, além das esculturas, uma série de trabalhos recentes, bidimensionais, tendo como base a fotografia.’ Formado pela Escola Nacional de Belas Artes, com especializações em Londres e Paris (onde expôs individualmente, apresentado por Pierre Restany, e fez grande sucesso, na Bienal de Jovens), Mauricio Salgueiro destaca-se entre nossos escultores pela falta de timidez e pela complexidade de seus projetos, em que a tecnologia se faz sempre presente. Num país onde escasseia a escultura - que exige ateliês espaçosos e recursos financeiros, a que ainda não conseguiu conquistar os colecionadores - é sempre bom poder saudar uma exposição de um escultor, mesmo se, para isso, for preciso atravessar a ponte Rio-Niterói. Mas em que consiste o projeto ‘Urbs’, que o Mauricio Salgueiro vem desenvolvendo coerentemente há cerca de 12 anos? O projeto futurista de reconstrução do universo encarava a cidade como "um imenso canteiro de construção naval, cheia de barulho e movimento" , os planos, perfis, cavidades e motores das máquinas "como elementos naturais para a construção de uma nova paisagem", Para os futuristas, era preciso substituir as velhas emoções estáticas por outras, mais dinâmicas, proporcionadas pelos ruídos e odores de motores e máquinas, pois só assim o homem moderno poderia acumular "energia suficiente para a eterna renovação da vida". Na sua entusiástica adesão á civilização moderna, os futuristas não apenas viam na máquina uma beleza superior à arte, como identificaram nela preocupações especialmente humanas. "A dor de um homem" – dizia Marinetti – "é interessante para nós tanto quanto a de uma lâmpada elétrica, que sofre, que se retorce em espasmos, e que grita com a expressão mais lancinante de dor" O tempo se encarregou de corrigir os excessos dos futuristas italianos, bem como suas perigosas distorções ideológicas. Porém, mais de meio século depois, é indiscutível a importância e, sobretudo, a atualidade do futurismo (Milão, 1910). Foi um movimento radical – isto é, um movimento que foi à raiz da sensibilidade moderna ao constatar que "a condição humana" está indissoluvelmente ligada à "condição da máquina".

Cidade|Máquina

Desde o início de sua carreira, Mauricio Salgueiro revelou esta preocupação "futurista’ com a máquina, isto é, compreendeu que o alargamento de nossa percepção dependerá do tipo de relacionamento que estabelecermos com as máquinas que envolvem nossa existência cotidiana. Se a arte é um poderoso instrumento de aprofundamento no ser humano, sua prática não pode ser entendida como fabricação de objetos ornamentos para embelezar nosso décor cotidiano. Produzir até é produzir conceitos. Portanto, se excluirmos a produção inicial, característica dos momentos de formação, ainda sob o influxo das lições escolares e das influencias bem ou mal assimiladas, podemos dizer, sem erro, que o binômio cidade|máquina foi, sempre, a preocupação de Mauricio Salgueiro como escultor. Os primeiros trabalhos da série "Urbs" (a partir de 1964) são postes de madeira com fios e isoladores de energia, os quais, mesmo pintados de branco, permanecem rudes e toscos, como aqueles que encontramos nos caminhos de terra das cidades interioranas ou nas favelas que sobem o morro ou nas encostas da cidade grande. Deles emana uma certa nostalgia de outros tempos e espaços – o ontem e a roça. São quase "humanos" na falta de jeito, na pobreza franciscana dos materiais ou na sua execução artesanal. Neles, entretanto, Salgueiro já introduz circuitos elétricos que fazem vibrar nervosamente os isoladores. Depois ou simultaneamente, realizou esculturas nas quais empregou chapas de ferro e sucata industrial. No tratamento da chapa persiste um certo expressionismo de suas fases anteriores, como a predileção pelas texturas e surpefícies rugosas obtidas com solda elétrica. O uso de material heteróclito - faróis de trânsito, buzinas, fios, ferramentas ou quase-ferramentas – sem dúvida tem alguma coisa a ver com os processos acumulativos e aprimorativos da pop-art e do novo realismo. A intenção de Salgueiro, porém, é menos a de fazer uma crítica da sociedade tecnológica ou de consumo, de encarar a arte como uma espécie de "relais" sociológico. Mesmo se, por vezes, e talvez mais por vício nosso, vemos suas peças adquirirem um sentido fisionômico, ou narrativo, como se fossem totens ou receptáculos de arcaísmos existentes em nossa sociedade industrial, a intenção do artista ao deslocar tais materiais ou sobras de seu contexto original para o da arte é a de recriá-los, injetando-lhes novos significados. Se persistem os resquícios expressionistas, não de todo superados, Salgueiro vai à frente de seus colegas escultores, introduzindo na escultura o som, depois o tato e, quase diria, o olfato. Um cheiro de fábrica, de oficina, de óleos industriais. Daí para frente, e cada vez mais, se deixa envolver por este invólucro industrial e urbano. Cria esculturas-máquinas que "gritam" , "choram" e, desta maneira, irritam, imcomodam, sujam...

Esculturas-Máquinas

Depois dos "postes" e "tótens", seu projeto "Urbs" evolui para maior simplificação formal, com uma redução sensível do uso de materiais. Trata-se, agora, de programar lâmpadas fluorescentes acendem ou se apagam segundo um ritmo espaço-temporal modulado pelas cores puras. Em seguida à fase dos neons, Salgueiro realiza grandes esculturas-máquinas, constituídas de duas partes: na inferior, dentro de uma estrutura vazada, bem visível, o motor, ao qual se liga enorme lâmina de aço, ocupando o retângulo superior. Quando esta se movimenta, provoca ruídos, quase uivos, à maneira de um sintetizador de sons (estas peças foram vistas no pátio externo do Museu de Arte Moderna no Rio, em 1978, na manifestação que ali organizei, "O som do domingo", e em São Paulo, na Praça Rosevelt, em mostra coletiva de escultura ao ar livre). Como se vê, Salgueiros sempre teve preocupações cinéticas, ora privilegiando a luz, ora o movimento, e a ambos acrescentando o som.

Máquinas Pulsantes

É por volta de 1972 que ele começa a realizar suas máquinas pulsantes, ainda dentro do projeto "Urbs". Do ponto de vista formal, suas novas esculturas revelam um despojamento muito acentuado no sentido quase minimalista, sobretudo as derradeiras - "pias e "tanques". São blocos compactos e retangulares, construídos com alumínio ou chapas de ferro, mas lisas, como as estruturas industriais. Entretanto, não são minimalistas na medida em que seu significado não se restringe aos aspectos puramente visuais da forma. Pois no seu interior, como se fosse um ser vivo, há algo que pulsa, e que, ao nosso toque (no Interruptor) responde expelindo um óleo viscoso (esperma? sangue?) ou faz surgir a água, transparente ou borbulhantemente suja, como vômitos. É que no interior dessas estruturas metálicas Salgueiro colocou motores hidráulicos que ao se movimentarem provocam ruídos e a expulsão espasmódica do óleo, que a própria máquina se encarrega de recolher. Em outros termos, a sístole e a diástole do coração. Ou também o orgasmo de um corpo que ama ( um parnasiano, dramaticamente diria: ou a hemoptise de um corpo que morre ). O líquido viscoso que escorre ela superfície-pele da estrutura-máquina é sugado para dentro da peça e novamente expelido, recomeçando o seu ciclo, eternamente. Trata-se, portanto, de um processo de retro-alimentação, de vitalidade realimentada, a ‘vida’ sempre renovada, como um moto - continuo, um ‘perpetuum mobile’.

Máquinas Celibatárias

A série ‘Urbs’, como se vê, evoluiu no sentido de uma gradativa interiorização: postes, sinais luminosos, buzinas, lâminas uivantes, motores, primeiramente expostos, como esculturas, em seguida abrigados dentro de corpos metálicos. De uma maior evidência cinética ele chegou ao despojamento minimalista, do enfoque sociológico a uma poética da máquina. A confluência do visual e do sonoro-olfativo, em ritmo pulsante, dá grande força e atualidade à escultura de Salgueiro. Confluência também de qualidades estéticas e sociológicas ( muitos poderão ver em seu trabalho uma atitude crítica em relação à poluição ambiental ). Porém, acima de tudo isso, creio ser mais importante detectar no seu trabalho esta tentativa de captar e transmitir a "condição da máquina", sua intimidade ou interioridade, seus "espaços subjetivos". Tentar compreender a "natureza" da máquina e não as suas funções pragmática é tentar compreender a natureza do homem, pois as máquinas são projeções ( extensões ) humanas. Por enquanto solitárias estas "máquinas celibatárias" poderão, no futuro, a partir de sucessivos "casamentos", criar uma realidade à parte. Aí, então, será muito tarde. A arte tem, entre outras funções, a de preparar o homem para os ambientes futuros. Com suas antenas permanentemente ligadas, o artista antecipa, vislumbra, detecta os novos ambientes, as novas realidades. "Somos os primitivos de uma época futura", dizia Léger.

O GRANDE CRESCIMENTO DA ESCULTURA BRASILEIRA - FRANCISCO BITTENOURT. Tribuna da Imprensa, 1971

À medida que a Arte se liberava de muitos preconceitos, as categorias iam perdendo importância. Houve por essa época um momento que se caracterizou por grande “orgia” criativa, em que não se pintava nem se esculpia no sentido tradicional. Tudo era objeto, caixa, relevo, saindo da parede para a terceira dimensão. O Salão criado pela Eletrobrás, com uma única edição foi uma oportunidade para se mostrar a pujança desse movimento. As Bienais e Salões ficaram cheios desse tipo de trabalho. Eram máquinas que acendiam luzes, faziam sons e movimentos. Um dos artistas mais lúcidos dessa tendência e que inclusive transformou-a em conceito é Maurício Salgueiro. Suas esculturas gemem, resfolegam, jorram óleos de diversas cores e sofrem, quase humanas.

ESCULTURAS - LIVIO ABRAMO. CATÁLOGO MISIÓN CULTURAL BRASILENÃ ASUNCIÓN – PARAGUAY, 1969

El arte de Mauricio Salgueiro es una arte que emana de las fuentes de la ironia amarga, de extrañas referencias entre el sentido oculto de las situaciones humanas y los elementos brutos que la mano del artista forja com el fuego de la soldadura autógena o que recoje entre los detritos y los destrozos de los llamados “cementerios de máquinas”. Aquellas referencias son, siempre, alusivas a la condición humana así como a la “condición de la máquina”, dado que el artista sabe arrancar incluso de la máquina el sentido de la intimidad que ésta crea en su manuseo, en “vivencia” por el hombre. O bien se refieren a la condición hombre-máquina, esta última considerada en su dimensión extra-mecánica, es decir , en las cosas y relaciones en que la máquina – este denominador común de nuestra civilización – es subyugada por la fuerza creadora del artista y ese modo sometida a las férreas leyes humanas, mucho más duras que el propio hierro. Es esto que Mauricio Salgueiro hace. Los ”residuos” de la máquina conservan y retienen toda su obtusidad material propia de su naturaleza y es precisamente esta “calidad” que concentra y condensa el grado de expresión entre el residuo y la masa escultórica directamente salida de la mano del artista mediante la fuerza de la llama y de la inspiración. Lo que quiere decir que el artista domina el objeto em toda su significación y lo funde en un todo, sin restarle potencia en su autonomía material dentro de la simbologia adquirida. Esta fase de la obra de Mauricio Salgueiro, que nos parece muy importante, no es la única representada en esta exposición. En otras piezas el artista simboliza las relaciones, las correspondencias entre el individuo, la máquina y el ambiente en que aquel vive – la ciudad moderna, la “urbs”. El “pathos” de estas relaciones está dramaticamente realizado en aquellas esculturas en donde el movimiento, las luces, los ruidos de la “urbs” contemporánea – ya que el arte de Salgueiro es inequívoco producto de la febril vida ciudadana en su esencia – la rudeza del metal y del sonido irritante buscan establecer el clima inquietante y obsesivo en el cual ciudadano de hoy es obligado a vivir. Las esculturas de Mauricio Salgueiro poseen una rara y poderosa agresividad material y física. De ellas irradia uma fuerza en que la materia bruta de la masa fundida y coagulada por el fuego de la soldadura dan mayor poder de expresión a la intensión del autor. Y esta intensidad choca, incomoda, dado que emana, incoercible, del hierro rudo, de los estridentes sonidos, de la nerviosa intermitencia de las luces, de todo esto que denuncia las situaciones más irrefutables de la vida contemporánea, con toda su tremenda carga pesando sobre el ser humano y transformando su naturalidad en las dramáticas figuraciones de estas esculturas. Esta es, en verdad, la revelación que solamente el arte hace posible. Estas impresiones – ya que outra cosa no pretenden ser – sobre la obra de Mauricio Salgueiro no estarían completas si no transcribiéramos aquí las apreciaciones que un crítico brasileño há hecho acerca de este artista. Creo más que justo, por lo tanto, conocer, a seguir, las palabras muy reveladoras, que un talentoso periodista brasileño escribió especialmente para el catálogo de esta exposición. Creo que de este modo mis apreciaciones, que se refieren a solamente uno dos aspectos de la obra aqui expuesta, quedán completadas, para la mejor apreciación de este artista cuya exposición da Misión Cultural Brasileña há tenido el placer de organizar y presentar al público paraguayo.

A série Urbis, de ”A Poética da Máquina” - Capítulo V – 1964 / 1969. FREDERICO MORAIS

Os trabalhos realizados por Maurício Salgueiro, entre 1964 e 1969, que integram a série “Urbis”, constituem o momento de inflexão de sua obra, promovendo sua inserção definitiva no grupo de artistas-inventores que contribuíram para a renovação da arte brasileira em sua vertente tecnológica. Apesar de abrigados em um único título e de, juntos, oferecerem uma visão coerente das questões abordadas – relativas à posição do artista face ao meio urbano contemporâneo – eles diferem tanto na escolha dos materiais e suportes – ferro, madeira e lâmpada fluorescente – quanto na linguagem adotada, formando, assim, três conjuntos perfeitamente identificáveis. O que existe de comum, nos três conjuntos, é a introdução do som e da luz como matéria prima da expressão plástica.

Mauricio Salgueiro - SINAIS - WALMIR AYALA. Catálogo - Paço das Artes, São Paulo – 1971

Mauricio Salgueiro monta suas esculturas com consciência feroz do instante triturador da vida moderna. Transforma em objetos de reflexão artística, todos os danos do progresso, todos os sons e atitudes que constituem a fobia mais ou menos consciente da massa em fuga para parte alguma. Há contudo a nobreza, nestas análises, que a matéria bruta não incluía. A nobreza e a independência, como se estas agressivas lâminas deformantes, movidas ao som de um rugido de atropelamento e degolação, se transformassem nos animais pré-históricos que os milênios encerraram para descanso de nossa vida diuturna. E de repente nos vem o terror, a certeza de que estamos ameaçados novamente, e nus nesta selva cheia de sombras e pesadelos. Só que nesta nova pré-história nos compete premer o botão que move o monstro, ainda que fatal seja seu aparecimento na vereda do nosso dia. Premer o botão e ver o indesejado, eis o dilema que nos propõe Maurício Salgueiro com sua escultura de participação, com sua paixão de animizar as formas esmagadoras da paisagem urbana. Este sinal de comando, proporcionado pelo artista, é que ainda nos salva.

SINAIS

As interferências da selva urbana, seu rugido, urro, estridência, dissonância, engrenagem triturante, impacto, esmagamento e milagrosa resistência: os esquemas rudes de uma fauna férrea. Esculturas com o peso específico da categoria + o movimento, a voz, a vibração (ruído nos trilhos subterrâneos de uma mina de ferro). Faróis que cortam friamente a área indefesa do homem. Fios que comunicam telefonicamente a voz pedida do espectador de arte, na simulação dramática de um sistema de comunicação no espaço limitado (e violentado) de uma exposição.

Rio de Janeiro, agosto de 1971

Exposição Reinventando o Mundo - Museu da Vale, Vitoria do Espírito Santo, 2013 - Franklin Espath Pedroso, Jorge Emanuel Espinho

Reiventando o Mundo Arte e Tecnologia Incontornável paradigma dos dias atuais: a realidade tecnológica e virtual em que vivemos submergidos transformou radicalmente todos os aspectos da nossa vida, nas suas principais e mais diversas vertentes. Se o advento da máquina e da automação prometia libertar o homem de funções meramente mecânicas e funcionais, permitindo-lhe dedicar-se a tarefas eminentemente lúdicas e enriquecedoras, todos somos, hoje, testemunhas da dependência total – e muitas vezes absurda – que o meio tecnológico e especificamente a internet imprimem e assumem no cotidiano. Esse pretenso efeito automático, de nós bem conhecido, manifesta-se radicalmente no dia a dia: na forma como nos comunicamos e exprimimo-nos, na maneira como acedemos e criamos a informação, na relação com o mundo e com o tempo, no trabalho e no lazer, no aparecimento de relações estritamente virtuais, em tudo o que somos e nos rodeia. Estruturas de informação e comunicação que eram, até há bem pouco tempo, perfeitamente válidas e comuns foram irremediavelmente ultrapassadas por uma cultura global de imediatismo, simultaneidade, acessibilidade e exigência. Não discorreremos aqui sobre o valor do que terá sido, talvez, para sempre perdido. Olharemos, antes, o presente, miríade de infinita luz tecnológica e virtual, que todos habitamos, indefectíveis e orgulhosos. O fenômeno da internet, advento total que trouxe à luz do tempo presente o acesso a vozes, contextos, realidades e memórias até então inescrutáveis – além de condicionantes de ordem geográfica, social, cultural ou política – expressa-se hoje de forma tão englobante e complexa que é difícil fazer dele um diagnóstico ou aproximação profundos. Destacaremos talvez a produção de conteúdos e sua fácil disseminação em rede planetária, como um dos maiores avanços da globalização na era da informação. Atualmente, são várias as manifestações sig- nificativas e seus resultados transformadores – com origens e efeitos de ordem política, cultural e social – que se originaram e alimentaram-se na web. Aqui, se a forma não faz o conteúdo, em muito o influencia e facilita. A rapidez, a eficácia de produção e a consequente difusão de temas e assuntos de natureza política, artística e cultural serão seguramente algumas das maiores conquistas da nossa era. O caráter expressivo, crítico e criativo – potenciado pela tecnologia infocomunicacional de que hoje dispomos – será um dos grandes modelos e padrões a influenciar, também, todo o tempo futuro. Mas aqui nos interessam mais em particular os artistas e suas obras: na qualidade de agentes criadores da vanguarda, utilizadores pioneiros e experimentais – e desde sempre – de todo e qualquer recurso mecânico ou tecnológico que possa revelar-se um instrumento precioso na sua expressão e criação artísticas. Serão, então, alvo da nossa atenção alguns dos mais interessantes criadores brasileiros da arte de pendor tecnológico. Pois foi precisamente no contexto das conferências Cyber-Arte-Cultura: a trama das redes, promovidas pela direção do Museu Vale, celebrando os seus 15 anos de atividade e que aconteceram em março de 2013, que surgiu o convite para que desenvolvêssemos uma orientação curatorial – e consequente seleção de artistas e respectivas obras – de recorte exemplificativo, mas abrangente do que foram, e são hoje, os principais agentes criadores da arte tecnológica no Brasil. Ao artista capixaba Mauricio Salgueiro foi reservado, logo de início um lugar de destaque na mostra, considerando o pioneirismo e a importância que o seu trabalho desde cedo assumiu no panorama artístico nacional e internacional, apesar de – e também contrariando – um estranho desconhecimento que persiste ainda hoje em relação à sua obra, inclusive nos meios artísticos e culturais brasileiros. Encontramos aqui um conjunto de 22 artistas e 37 obras – resultado de uma escolha bastante difícil – entre muitos outros que por diversas razões se viram impossibilitados de estar presentes. Importa reforçar que, no recorte temporal referido, muitos foram os criadores importantes que se serviram da tecnologia, mecânica ou digital, na sua ação criadora e produtiva. Apesar da excelente dimensão do espaço expositivo, seria fisicamente impossível incluir todos. Ficamos assim com uma mostra – entre outras possíveis – que julgamos representativa da arte tecnológica brasileira. Incluímos vertentes como a arte cinética e sonora, a videoarte e o mapping, a instalação e a bioarte, a robótica e a interatividade numa panóplia diversificada e exemplificativa, ruidosa e colorida, tão ao gosto dos tempos modernos. Os artistas aqui presentes são: Abraham Palatnik, André Parente, Angela Detanico & Rafael Lain, Chelpa Ferro, Eduardo Kac, Fernando Velázquez, Floriano Romano, Leandro Lima & Gisela Motta, Letícia Parente, Marcelo Moscheta, Mariana Manhães, Marssares, Mauricio Salgueiro, Milton Marques, O Grivo, Paulo Bruscky, Paulo Nen"idio, Paulo Vivacqua, Pedro Paulo Domingues, Rafael França, Regina Silveira e Sonia Andrade. PRIMEIRA SALA – ANOS 60 A 90 A cidade – pioneirismo, experimentação, crítica social A cidade cedo se revelou como a mais completa e complexa invenção do homem, berço de todas as descobertas e destino de todas as invenções, caldo profícuo e criador de todas as correntes e vanguardas, destino de todas as viagens em procura de enriquecimento financeiro ou cultural, pano de fundo escolhido para uma vida de possibilidades cumpridas e conquistas realizadas. Mas também, imediatamente, prisão dourada a encurralar e a reduzir o homem moderno, perdido numa corrida louca e circular rumo ao dia a dia – produtivo e escravizante, frenético e infinito – da dura e competitiva realidade urbana. Considerando a enorme onda contestatária e de contracultura que varreu na década de 1960 todo o espectro ocidental – à procura de uma alternativa a essa realidade do homem mecanizado e mero objeto, refém de correntes de produtividade e normalização impostas, de valores éticos, profissionais e culturais; e tendo em conta o contexto particular que o Brasil vivia na época – refém de uma ditadura feroz, particularmente durante os chamados anos de chumbo, entre finais dos anos 60 a meados da década de 1970 –, é imprescindível sublinhar aqui a atividade artística de alguns criadores que já nessa época apontavam caminhos, desbravavam conceitos e iniciavam um percurso – impensável para o homem comum – de inovação inventiva e artística com forte consciência e crítica política, social, ética, cultural. Para alguns, serviria a própria realidade urbana que os rodeava – no seu alto contraste de deslumbramento luminoso modernizado e ruidosa marcha mecanizada; de multidões (des)ordeiras perdidas no caos cotidiano mas também do acesso iniciático e aparentemente ilimitado a um admirável mundo novo de possibilidades, mecanismos e experiências por descobrir –, a cidade; como sumário criativo, inspirador e revelador, desse trabalho de apontar caminhos e descobrir amarras. Uma construção ainda inicial, mas firme e decidida, de uma obra e percurso pertinentes, atentos, inventivos, maravilhosos. Esses artistas se revelariam, muitos anos depois, visionários verdadeiramente privilegiados na sua releitura criativa, clara e incisiva, transformadora e paradigmática de uma realidade pós- -moderna dura e difícil. Uma realidade já claramente formatada num crescente e circundante domínio uniformizado: tecnológico e artificial, político e social. Um desafio crucial à individualidade, criatividade e liberdade; fundamentais condições para a plena existência do indivíduo no espaço contemporâneo. Mauricio Salgueiro nasceu no Espírito Santo em 1930, partindo aos seis anos para o Rio de Janeiro. Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes e aperfeiçoou seus estudos de escultura em metal em Paris e em Londres. Foi professor em várias escolas, institutos e universidades, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo; participou, a partir de meados dos anos 60, de várias bienais e salões de arte moderna, no Brasil e no mundo. Pioneiro da arte tecnológica no Brasil, as suas esculturas sonoras, luminosas e mecânicas logo incorporaram elementos da realidade urbana, como buzinas e semáforos, movimentos de marcha sincopada e ruidosa, e o uso de lâmpadas fluorescentes num jogo cromático e mecanizado de fascínio e beleza. Sempre interativos, seus trabalhos proporcionam ao espectador uma experiência profunda de expectativa e deslumbramento, através da brilhante reutilização e ressignificação de elementos do cotidiano, numa nova forma escultural e plástica, reflexiva e envolvente, de enorme valor artístico. Incluímos nesta mostra um conjunto representativo da produção do artista, num total de 10 obras. Elas representam alguns momentos significativos de um recorte de três décadas de produção, utilizando recursos tecnológicos que, se hoje nos parecem bem ultrapassados, eram absolutamente inovações naquela época. A Urbis II (1964), semáforo sonoro incoerente e aleatório, a confundir instruções num tráfego caótico e irritante; a Vênus androide I (1998), escultura mecânica cujos movimentos de marcha ruidosa aplicados a um arquétipo feminino de fertilidade e beleza – feito totem de aço frio – parecem falar da inalcançável distância que nos separa de um sensível primordial; a Poça (série Vazamentos, 1985), surpreendente hino a um masculino falhado e redundante, plástico e ôrganico, na sua avermelhada prisão oleosa, imponente e afirmativa; A lâmina (1969), enorme e ondulante folha de aço reflexivo, paródia meio descontrolada e barulhenta, ao espelho, nota breve de um ego destruído pela força mecânica que o imita, distorce e desfigura; a Urbis V (As vizinhas) (1965); em que aquilo que ali dizemos é escutado em outro lugar, sem que o saibamos e ao vivo, visionária referência crítica – e tão atual – a questões como a privacidade, o uso perverso da tecnologia, o poder controlador de um estado que espia seus cidadãos; e as várias Esculturas luminosas I, III, IV, VII e X (de 1963 a 2011), belas referências cromáticas de luz e cor aos enormes edifícios que habitam e habitamos – supremos e sublimes, imóveis e altivos –, os mais elevados e dominantes lugares das nossas populosas e caóticas cidades modernas. Destas destacaremos a Escultura luminosa X (1968-2011), em que o interior belo e confuso de fios e fichas coloridas é deixado a descoberto pelo artista, descoberta em simbólica revelação da vida interior – desordenada e obscura, revolta e conflituosa –, que alimenta e preenche o âmago vital de qualquer estrutura. Essa obra forte e metafórica, cheia de beleza e confusão – e também claramente remetente às enormes construções habitacionais dos grandes centros urbanos – reúne em simples e sedutora disposição essas duas facetas fundamentais da realidade tecnológica que nos rodeia: por um lado, uma exterioridade sedutora e funcional, bela e prática, disponível e aberta; por outro, encerra em seu interior a teia inescrutável de relações e sobreposições, contaminações e dispersão, que apenas percebemos assim: simbolicamente apresentadas numa obra de arte penetrante, significativa, sedutora e envolvente.... ...Talvez esse cosmos vivo de Palatnik represente, nesse ambiente expositivo, o ponto de fuga visual e simbólico, distante, mas desejado: o ambiente urbano complexo que fomos aqui construindo. A representação poética e ambiciosa de dimensões e vontades maiores escapam ao seu parco e ruidoso entendimento e pequenez. Pois na ensandecida vivência da realidade confusa e limitante da casa e da cidade, o homem procura ainda, no alto exterior, no que ainda não abarca nem compreende, um sentido maior para esse cotidiano acelerado e redutor. Algumas obras parecem descrever claramente esse débil estado à mercê da dura realidade urbana e doméstica (Salgueiro, França e Andrade), a procura de uma expressão/comunicação íntimas e autênticas (Parente e Bruscky), que contrariem o automatismo e a limitação – a regulação – impostos pelos meios e mecanismos então disponíveis (Palatnik, Salgueiro e Silveira). Pois na era da viagem à Lua e do progresso da ciência, da inovação tecnológica e da produção em massa e no meio de diversas restrições e convulsões de ordem política e social, os artistas procuravam, mais à frente e noutras enviesadas direções, diagnosticar uma sociedade febril e voraz, seus ritmos imparáveis e mecanizados de produção e consumo, a ausência de padrões de criação e liberdade pensados e aplicados à frágil e delicada – mas enérgica e expressiva –, escala humana.