URBIS V: AS VIZINHAS - 1965

Madeira, fotos, isoladores, fios, amplificador, altofalante, socorro eletro-mecânico e vozes humanas

Exposição individual no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Paço das Artes - São Paulo

Sólido Insólito - Vitória, ES

críticas, textos e depoimentos

ARTE NO ATERRO - FREDERICO DE MORAES. Diário de Notícias, 19-07-1968

Os seis artistas que expõem isoladamente suas obras ou se manifestam neste fim de semana – 20 e 21 de julho - na programação UM MÊS DE ARTE PÚBLICA, tem de comum, em primeiro lugar, a ousadia de suas proposições, que rompem com varas convenções e preconceitos relativamente à escultura e à pintura. Em seguida, a pesquisa em torno do suporte. O apelo à participação lúdica do espectador, de um lado, e a reelaboração da paisagem física da cidade são outros fatores que aproximam estes artistas, todos de vanguarda. Mas em cada um há uma proposta individual que reflete, naturalmente, sua maneira de ver o mundo, as coisas, o homem e a arte. Maurício Salgueiro tem uma formação expressionista. Antes usava formas pontiagudas, efeitos de matéria com a ajuda da solda, planos contrapostos e conflitantes. A partir de certo momento, porém, acrescentou novos elementos à sua escultura, os quais, à medida que negavam a primazia do plástico-visual, valorizavam suas proposições. Refiro-me aos efeitos de luz e de som (incluindo-se, aqui, a própria voz do espectador), sempre relacionados ao meio urbano: sinais luminosos de trânsito, sirenas, buzinas de automóveis. E pode-se inferir de seus trabalhos uma posição crítica face ao tumulto sonoro das grandes cidades. Como também certa nostalgia de uma cidade mais simples, humana, intimista. É o que se pode perceber, talvez, nos seus ”postes” mais recentes. Não são postes de ferro, como os do asfalto, nem os de concreto do Aterro, mas postes de uma “suburbs”, a favela, por exemplo, a cidade do interior. Postes suburbanos, saudosos de uma vida mais prosaica, comunitária. Nestes postes tudo à vista, os fios, os isoladores, a madeira irregular, as partes são pregadas e pintadas toscamente. Maurício Salgueiro age como se nada quisesse acrescentar de seu poste para trazê-lo intacto à contemplação do público.

SOM E LUZ DE MAURICIO SALGUEIRO - HARRY LAUS. Jornal do Brasil – 13 de maio de 1966

O Museu de Arte Moderna inaugurou ontem uma exposição individual do escultor Mauricio Salgueiro, reunindo oito grandes trabalhos que refletem as pesquisas de luz e som ultimamente feitas pelo artista. Analisando-se a obra de Salgueiro após seu regresso da Europa, onde esteve em gozo do Prêmio de Viagem ao Estrangeiro pelo Salão Nacional de Belas-Artes, notamos de imediato uma necessidade irresistível de descobrir novos caminhos de expressão artística, próprios dos movimentos de vanguarda.

Figuras de luz

Inicialmente preocupado em refazer figuras (humanas ou de animais) com o emprego de objetos metálicos os mais variados, encontrados em depósitos de ferro velho, chegou a construir uma coruja, datada de 1963, cujos olhos eram dois faróis de automóvel. Sem luz própria mas já contendo a valoração dos reflexos sobre a superfície convexa e lapidada do vidro, pode ser considerada o ponto de partida para os trabalhos subsequentes. Vale salientar neste ponto que, com trabalhos desta natureza, obteve o Prêmio Nacional de Escultura no I Salão de Arte Moderna do Distrito Federal, em 1964. Ainda em 1964, inicia a fase em que o emprego da luz (sinais de tráfego, luzes pisca-pisca) começa a entrelaçar-se com o som de buzinas e sirenes. Já então a figura foi totalmente esquecida e o escultor é levado a valorizar o conjunto mais ou menos abstrato mediante a soldagem de peças metálicas irregulares para que os reflexos luminosos ganhassem novos efeitos. As esculturas dessa fase deram a Salgueiro o Prêmio Esso de Escultura, em 1965, tendo sido selecionado para representar o Brasil na Bienal de Paris. No mesmo ano recebe Isenção de Júri no Salão Nacional de Arte Moderna e o Prêmio de Escultura no III Resumo de Arte do JORNAL DO BRASIL. Cabe aqui um registro curioso: na Bienal de Paris, a polícia não permitiu o funcionamento da sirene “porque os parisienses já haviam sofrido demais durante a guerra com ruídos desta natureza”. Na mostra do MAM o escultor pretende não ser prejudicado, com a mesma escultura que esteve em Paris.

Na Bienal

Para a Bienal de São Paulo, preparou três peças – todas aceitas – onde a preocupação fundamental era a luz, não contendo elementos sonoros. Tratava-se apenas de conjugar cores variáveis de lâmpadas de luz fria, colocadas paralelamente em superfícies metálicas planas. (Duas destas esculturas estarão na mostra do Museu). Sem aprofundar esta experiência que pretendia, de certa forma, fixar um dos aspectos de nossa civilização atual, Isto é, os anúncios luminosos, sua insatisfação e espírito de busca conduzem-no a nova reformulação artística: o emprego da voz humana na escultura. O grande trabalho intitulado Urbis III, formado de dois conjuntos monumentais, encarrega-se de mostrar a experiência. O primeiro, em toras de madeira e placas de metal, representando um conglomerado humano (note-se as pequenas janelas com pessoas, animais, vasos de flor) possui um microfone supersensível que transmite ao segundo as conversas e ruídos do público, que saem ampliadas em possante alto-falante do segundo conjunto, onde foi pintada uma boca. A intenção do autor, segundo nos declarou, é de crítica a certa camada social que sente “verdadeira necessidade orgânica de saber da vida alheia e divulgá-la”.

Outros efeitos

Paralelamente a esta ideia, surge outra que a nosso ver poderá e deverá ser melhor explorada para a obtenção de efeitos superiores aos já conseguidos. À entrada da exposição há uma escultura em madeira pintada de branco onde duas luzes a neon, uma azul e outra vermelha, revezam-se para alterar a colocação de pequenas zonas de cores diversas pintadas em quadrados ou retângulos. Assim, quando a lâmpada azul se acende, o laranja vira terra, o vermelho fica cinza, o violeta transforma-se em marinho; chegando a vez do vermelho, o laranja e o amarelo ficam limão, o verde aparece cinzento, o violeta torna-se magenta, etc. De tudo que foi dito fica patente a inquietação do artista que a partir de 1963 renova-se sem cessar, ainda que sempre preso aos dois elementos fundamentais de suas criações: o som e a luz. Sua fúria inventiva, no entanto, precisa ser melhor contida e controlada para que as descobertas sejam levadas até as últimas consequências, sob pena de ficarem apenas como sugestões ou receitas para outros bandeirantes. Há ainda um ponto que queremos registrar: o lado humanamente comovedor da escultura de Mauricio Salgueiro. Apesar de lutar com grandes e compreensíveis dificuldades de ordem material para realizar seus trabalhos, persiste no ideal artístico, embora sabendo que muito dificilmente venderá o que produz. Numa época em que outros artistas chegam a ter equipes para pintar seus quadros e vende-los ainda frescos ao comprador faminto, é mais um voto de louvor que o escultor merece.

O SOM - FREDERICO MORAIS. De “A poética da Máquina” - Capítulo V / 1

Um outro aspecto da sonoridade escultórica de Salgueiro é o emprego da voz humana na obra “Urbis III” que fez parte de sua individual no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1966, e cinco anos depois, da coletiva “10 artistas nacionais”, realizada no Paço das Artes, na capital paulista. Descrevo-a, sucintamente. São duas estruturas de madeira, verticais como os velhos postes, ligadas por fios elétricos, mas distantes uma da outra em cerca de 20 metros. Pequenas fotografias, emolduradas como se fossem janelas, figuram moradores de um hipotético edifício. Um microfone supersensível implantado na primeira estrutura, transmite à segunda estrutura, conversas e ruídos diversos, ampliados por auto-falantes. As expressões curiosas e um tanto cômicas das mulheres indicariam, de acordo com o artista, a nossa tradição ibérica do cochicho, da fofoca e da maledicência. A conversação que os visitantes mantinham entre si numa das extremidades do trabalho e que incluíam, obviamente, opiniões sobre a própria obra, estava sendo ouvida e comentada pelo público que se encontrava no outro extremo, transformando, assim, sua instalação, em um debate aberto. Esta experiência já fora vivida por Salgueiro, que fazia ecoar para dentro do seu ateliê do Cosme Velho, através de fiação ligada a um amplificador, a sonoridade da rua.

Exposição Reinventando o Mundo - Museu da Vale, Vitoria do Espírito Santo, 2013 - Franklin Espath Pedroso, Jorge Emanuel Espinho

Reiventando o Mundo Arte e Tecnologia Incontornável paradigma dos dias atuais: a realidade tecnológica e virtual em que vivemos submergidos transformou radicalmente todos os aspectos da nossa vida, nas suas principais e mais diversas vertentes. Se o advento da máquina e da automação prometia libertar o homem de funções meramente mecânicas e funcionais, permitindo-lhe dedicar-se a tarefas eminentemente lúdicas e enriquecedoras, todos somos, hoje, testemunhas da dependência total – e muitas vezes absurda – que o meio tecnológico e especificamente a internet imprimem e assumem no cotidiano. Esse pretenso efeito automático, de nós bem conhecido, manifesta-se radicalmente no dia a dia: na forma como nos comunicamos e exprimimo-nos, na maneira como acedemos e criamos a informação, na relação com o mundo e com o tempo, no trabalho e no lazer, no aparecimento de relações estritamente virtuais, em tudo o que somos e nos rodeia. Estruturas de informação e comunicação que eram, até há bem pouco tempo, perfeitamente válidas e comuns foram irremediavelmente ultrapassadas por uma cultura global de imediatismo, simultaneidade, acessibilidade e exigência. Não discorreremos aqui sobre o valor do que terá sido, talvez, para sempre perdido. Olharemos, antes, o presente, miríade de infinita luz tecnológica e virtual, que todos habitamos, indefectíveis e orgulhosos. O fenômeno da internet, advento total que trouxe à luz do tempo presente o acesso a vozes, contextos, realidades e memórias até então inescrutáveis – além de condicionantes de ordem geográfica, social, cultural ou política – expressa-se hoje de forma tão englobante e complexa que é difícil fazer dele um diagnóstico ou aproximação profundos. Destacaremos talvez a produção de conteúdos e sua fácil disseminação em rede planetária, como um dos maiores avanços da globalização na era da informação. Atualmente, são várias as manifestações sig- nificativas e seus resultados transformadores – com origens e efeitos de ordem política, cultural e social – que se originaram e alimentaram-se na web. Aqui, se a forma não faz o conteúdo, em muito o influencia e facilita. A rapidez, a eficácia de produção e a consequente difusão de temas e assuntos de natureza política, artística e cultural serão seguramente algumas das maiores conquistas da nossa era. O caráter expressivo, crítico e criativo – potenciado pela tecnologia infocomunicacional de que hoje dispomos – será um dos grandes modelos e padrões a influenciar, também, todo o tempo futuro. Mas aqui nos interessam mais em particular os artistas e suas obras: na qualidade de agentes criadores da vanguarda, utilizadores pioneiros e experimentais – e desde sempre – de todo e qualquer recurso mecânico ou tecnológico que possa revelar-se um instrumento precioso na sua expressão e criação artísticas. Serão, então, alvo da nossa atenção alguns dos mais interessantes criadores brasileiros da arte de pendor tecnológico. Pois foi precisamente no contexto das conferências Cyber-Arte-Cultura: a trama das redes, promovidas pela direção do Museu Vale, celebrando os seus 15 anos de atividade e que aconteceram em março de 2013, que surgiu o convite para que desenvolvêssemos uma orientação curatorial – e consequente seleção de artistas e respectivas obras – de recorte exemplificativo, mas abrangente do que foram, e são hoje, os principais agentes criadores da arte tecnológica no Brasil. Ao artista capixaba Mauricio Salgueiro foi reservado, logo de início um lugar de destaque na mostra, considerando o pioneirismo e a importância que o seu trabalho desde cedo assumiu no panorama artístico nacional e internacional, apesar de – e também contrariando – um estranho desconhecimento que persiste ainda hoje em relação à sua obra, inclusive nos meios artísticos e culturais brasileiros. Encontramos aqui um conjunto de 22 artistas e 37 obras – resultado de uma escolha bastante difícil – entre muitos outros que por diversas razões se viram impossibilitados de estar presentes. Importa reforçar que, no recorte temporal referido, muitos foram os criadores importantes que se serviram da tecnologia, mecânica ou digital, na sua ação criadora e produtiva. Apesar da excelente dimensão do espaço expositivo, seria fisicamente impossível incluir todos. Ficamos assim com uma mostra – entre outras possíveis – que julgamos representativa da arte tecnológica brasileira. Incluímos vertentes como a arte cinética e sonora, a videoarte e o mapping, a instalação e a bioarte, a robótica e a interatividade numa panóplia diversificada e exemplificativa, ruidosa e colorida, tão ao gosto dos tempos modernos. Os artistas aqui presentes são: Abraham Palatnik, André Parente, Angela Detanico & Rafael Lain, Chelpa Ferro, Eduardo Kac, Fernando Velázquez, Floriano Romano, Leandro Lima & Gisela Motta, Letícia Parente, Marcelo Moscheta, Mariana Manhães, Marssares, Mauricio Salgueiro, Milton Marques, O Grivo, Paulo Bruscky, Paulo Nen"idio, Paulo Vivacqua, Pedro Paulo Domingues, Rafael França, Regina Silveira e Sonia Andrade. PRIMEIRA SALA – ANOS 60 A 90 A cidade – pioneirismo, experimentação, crítica social A cidade cedo se revelou como a mais completa e complexa invenção do homem, berço de todas as descobertas e destino de todas as invenções, caldo profícuo e criador de todas as correntes e vanguardas, destino de todas as viagens em procura de enriquecimento financeiro ou cultural, pano de fundo escolhido para uma vida de possibilidades cumpridas e conquistas realizadas. Mas também, imediatamente, prisão dourada a encurralar e a reduzir o homem moderno, perdido numa corrida louca e circular rumo ao dia a dia – produtivo e escravizante, frenético e infinito – da dura e competitiva realidade urbana. Considerando a enorme onda contestatária e de contracultura que varreu na década de 1960 todo o espectro ocidental – à procura de uma alternativa a essa realidade do homem mecanizado e mero objeto, refém de correntes de produtividade e normalização impostas, de valores éticos, profissionais e culturais; e tendo em conta o contexto particular que o Brasil vivia na época – refém de uma ditadura feroz, particularmente durante os chamados anos de chumbo, entre finais dos anos 60 a meados da década de 1970 –, é imprescindível sublinhar aqui a atividade artística de alguns criadores que já nessa época apontavam caminhos, desbravavam conceitos e iniciavam um percurso – impensável para o homem comum – de inovação inventiva e artística com forte consciência e crítica política, social, ética, cultural. Para alguns, serviria a própria realidade urbana que os rodeava – no seu alto contraste de deslumbramento luminoso modernizado e ruidosa marcha mecanizada; de multidões (des)ordeiras perdidas no caos cotidiano mas também do acesso iniciático e aparentemente ilimitado a um admirável mundo novo de possibilidades, mecanismos e experiências por descobrir –, a cidade; como sumário criativo, inspirador e revelador, desse trabalho de apontar caminhos e descobrir amarras. Uma construção ainda inicial, mas firme e decidida, de uma obra e percurso pertinentes, atentos, inventivos, maravilhosos. Esses artistas se revelariam, muitos anos depois, visionários verdadeiramente privilegiados na sua releitura criativa, clara e incisiva, transformadora e paradigmática de uma realidade pós- -moderna dura e difícil. Uma realidade já claramente formatada num crescente e circundante domínio uniformizado: tecnológico e artificial, político e social. Um desafio crucial à individualidade, criatividade e liberdade; fundamentais condições para a plena existência do indivíduo no espaço contemporâneo. Mauricio Salgueiro nasceu no Espírito Santo em 1930, partindo aos seis anos para o Rio de Janeiro. Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes e aperfeiçoou seus estudos de escultura em metal em Paris e em Londres. Foi professor em várias escolas, institutos e universidades, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo; participou, a partir de meados dos anos 60, de várias bienais e salões de arte moderna, no Brasil e no mundo. Pioneiro da arte tecnológica no Brasil, as suas esculturas sonoras, luminosas e mecânicas logo incorporaram elementos da realidade urbana, como buzinas e semáforos, movimentos de marcha sincopada e ruidosa, e o uso de lâmpadas fluorescentes num jogo cromático e mecanizado de fascínio e beleza. Sempre interativos, seus trabalhos proporcionam ao espectador uma experiência profunda de expectativa e deslumbramento, através da brilhante reutilização e ressignificação de elementos do cotidiano, numa nova forma escultural e plástica, reflexiva e envolvente, de enorme valor artístico. Incluímos nesta mostra um conjunto representativo da produção do artista, num total de 10 obras. Elas representam alguns momentos significativos de um recorte de três décadas de produção, utilizando recursos tecnológicos que, se hoje nos parecem bem ultrapassados, eram absolutamente inovações naquela época. A Urbis II (1964), semáforo sonoro incoerente e aleatório, a confundir instruções num tráfego caótico e irritante; a Vênus androide I (1998), escultura mecânica cujos movimentos de marcha ruidosa aplicados a um arquétipo feminino de fertilidade e beleza – feito totem de aço frio – parecem falar da inalcançável distância que nos separa de um sensível primordial; a Poça (série Vazamentos, 1985), surpreendente hino a um masculino falhado e redundante, plástico e ôrganico, na sua avermelhada prisão oleosa, imponente e afirmativa; A lâmina (1969), enorme e ondulante folha de aço reflexivo, paródia meio descontrolada e barulhenta, ao espelho, nota breve de um ego destruído pela força mecânica que o imita, distorce e desfigura; a Urbis V (As vizinhas) (1965); em que aquilo que ali dizemos é escutado em outro lugar, sem que o saibamos e ao vivo, visionária referência crítica – e tão atual – a questões como a privacidade, o uso perverso da tecnologia, o poder controlador de um estado que espia seus cidadãos; e as várias Esculturas luminosas I, III, IV, VII e X (de 1963 a 2011), belas referências cromáticas de luz e cor aos enormes edifícios que habitam e habitamos – supremos e sublimes, imóveis e altivos –, os mais elevados e dominantes lugares das nossas populosas e caóticas cidades modernas. Destas destacaremos a Escultura luminosa X (1968-2011), em que o interior belo e confuso de fios e fichas coloridas é deixado a descoberto pelo artista, descoberta em simbólica revelação da vida interior – desordenada e obscura, revolta e conflituosa –, que alimenta e preenche o âmago vital de qualquer estrutura. Essa obra forte e metafórica, cheia de beleza e confusão – e também claramente remetente às enormes construções habitacionais dos grandes centros urbanos – reúne em simples e sedutora disposição essas duas facetas fundamentais da realidade tecnológica que nos rodeia: por um lado, uma exterioridade sedutora e funcional, bela e prática, disponível e aberta; por outro, encerra em seu interior a teia inescrutável de relações e sobreposições, contaminações e dispersão, que apenas percebemos assim: simbolicamente apresentadas numa obra de arte penetrante, significativa, sedutora e envolvente.... ...Talvez esse cosmos vivo de Palatnik represente, nesse ambiente expositivo, o ponto de fuga visual e simbólico, distante, mas desejado: o ambiente urbano complexo que fomos aqui construindo. A representação poética e ambiciosa de dimensões e vontades maiores escapam ao seu parco e ruidoso entendimento e pequenez. Pois na ensandecida vivência da realidade confusa e limitante da casa e da cidade, o homem procura ainda, no alto exterior, no que ainda não abarca nem compreende, um sentido maior para esse cotidiano acelerado e redutor. Algumas obras parecem descrever claramente esse débil estado à mercê da dura realidade urbana e doméstica (Salgueiro, França e Andrade), a procura de uma expressão/comunicação íntimas e autênticas (Parente e Bruscky), que contrariem o automatismo e a limitação – a regulação – impostos pelos meios e mecanismos então disponíveis (Palatnik, Salgueiro e Silveira). Pois na era da viagem à Lua e do progresso da ciência, da inovação tecnológica e da produção em massa e no meio de diversas restrições e convulsões de ordem política e social, os artistas procuravam, mais à frente e noutras enviesadas direções, diagnosticar uma sociedade febril e voraz, seus ritmos imparáveis e mecanizados de produção e consumo, a ausência de padrões de criação e liberdade pensados e aplicados à frágil e delicada – mas enérgica e expressiva –, escala humana.