VÊNUS ANDRÓIDE - 1998

Aço inox, madeira, acrílico, som e movimento com socorro eletro-mecânico

Coleção do artista

críticas, textos e depoimentos

ANDRÓIDE: A VÊNUS SILICONADA - de "A Poética da Máquina". Capítulo V. Frederico Morais

... O “androide” de Salgueiro, em fase de conclusão, é uma réplica da Vênus de Milo, que foi esculpida originalmente em mármore, por autor desconhecido, do século II a.C. Exposta em caráter permanente no Museu do Louvre, em Paris, a escultura grega é uma das obras mais populares da história da arte, adotada pelo grande público como um padrão universal da beleza. Para realizar seu “andróide”, Salgueiro concebeu e realizou sofisticado mecanismo que lhe permite produzir movimentos corpóreos, enquanto busca traduzir com a maciez da pasta de silicone a sensualidade cálida da epiderme feminina. Estando a obra inconclusa, creio ser prematura uma análise sobre sua semântica e sintaxe. Mas posso falar de minhas expectativas em relação à obra. Ou de sensações. Antes mesmo de ver as primeiras versões de seu “andróide”, mas informado sobre o andamento de suas pesquisas, iniciadas na década passada, fiquei a imaginar em que resultaria a substituição da frialdade e dureza do mámore, com seu ranço autoritário, pelo calor e maciez do silicone. A sensação que eu esperava experimentar era a de um corpo que respira, que age de modo quase imperceptível. O mármore encarnado, isto é, fazendo-se carne, pele e poros. Calor e ardor. Carnalidade, dizem os dicionários, é sensualidade e concupiscência, e encarnação significa, em teologia, o mistério pelo qual Deus se fez homem. Assim, encarnar diz respeito a uma prática específica (dar cor de carne às imagens, estátuas ou objetos), quanto personificar, deixar penetrar o espírito no corpo, tomar vulto, entranhar-se, enraizar-se... ...Um curta-metragem realizado pelo filho do artista, homônimo do pai, documentando a primeira fase do trabalho, mostra a engrenagem mecânica substituindo o organismo do homem. Nessa etapa, Vênus é tão somente a nudez do ferro. a máquina descarnada, desprovida de qualquer disfarce. Na etapa seguinte, Salgueiro vestiu esse corpo-máquina com uma nova pele, a da arte, sublimando, visualmente, sua realidade mecânica, sem negá-la, porém.

Exposição Reinventando o Mundo - Museu da Vale, Vitoria do Espírito Santo, 2013 - Franklin Espath Pedroso, Jorge Emanuel Espinho

Reiventando o Mundo Arte e Tecnologia Incontornável paradigma dos dias atuais: a realidade tecnológica e virtual em que vivemos submergidos transformou radicalmente todos os aspectos da nossa vida, nas suas principais e mais diversas vertentes. Se o advento da máquina e da automação prometia libertar o homem de funções meramente mecânicas e funcionais, permitindo-lhe dedicar-se a tarefas eminentemente lúdicas e enriquecedoras, todos somos, hoje, testemunhas da dependência total – e muitas vezes absurda – que o meio tecnológico e especificamente a internet imprimem e assumem no cotidiano. Esse pretenso efeito automático, de nós bem conhecido, manifesta-se radicalmente no dia a dia: na forma como nos comunicamos e exprimimo-nos, na maneira como acedemos e criamos a informação, na relação com o mundo e com o tempo, no trabalho e no lazer, no aparecimento de relações estritamente virtuais, em tudo o que somos e nos rodeia. Estruturas de informação e comunicação que eram, até há bem pouco tempo, perfeitamente válidas e comuns foram irremediavelmente ultrapassadas por uma cultura global de imediatismo, simultaneidade, acessibilidade e exigência. Não discorreremos aqui sobre o valor do que terá sido, talvez, para sempre perdido. Olharemos, antes, o presente, miríade de infinita luz tecnológica e virtual, que todos habitamos, indefectíveis e orgulhosos. O fenômeno da internet, advento total que trouxe à luz do tempo presente o acesso a vozes, contextos, realidades e memórias até então inescrutáveis – além de condicionantes de ordem geográfica, social, cultural ou política – expressa-se hoje de forma tão englobante e complexa que é difícil fazer dele um diagnóstico ou aproximação profundos. Destacaremos talvez a produção de conteúdos e sua fácil disseminação em rede planetária, como um dos maiores avanços da globalização na era da informação. Atualmente, são várias as manifestações sig- nificativas e seus resultados transformadores – com origens e efeitos de ordem política, cultural e social – que se originaram e alimentaram-se na web. Aqui, se a forma não faz o conteúdo, em muito o influencia e facilita. A rapidez, a eficácia de produção e a consequente difusão de temas e assuntos de natureza política, artística e cultural serão seguramente algumas das maiores conquistas da nossa era. O caráter expressivo, crítico e criativo – potenciado pela tecnologia infocomunicacional de que hoje dispomos – será um dos grandes modelos e padrões a influenciar, também, todo o tempo futuro. Mas aqui nos interessam mais em particular os artistas e suas obras: na qualidade de agentes criadores da vanguarda, utilizadores pioneiros e experimentais – e desde sempre – de todo e qualquer recurso mecânico ou tecnológico que possa revelar-se um instrumento precioso na sua expressão e criação artísticas. Serão, então, alvo da nossa atenção alguns dos mais interessantes criadores brasileiros da arte de pendor tecnológico. Pois foi precisamente no contexto das conferências Cyber-Arte-Cultura: a trama das redes, promovidas pela direção do Museu Vale, celebrando os seus 15 anos de atividade e que aconteceram em março de 2013, que surgiu o convite para que desenvolvêssemos uma orientação curatorial – e consequente seleção de artistas e respectivas obras – de recorte exemplificativo, mas abrangente do que foram, e são hoje, os principais agentes criadores da arte tecnológica no Brasil. Ao artista capixaba Mauricio Salgueiro foi reservado, logo de início um lugar de destaque na mostra, considerando o pioneirismo e a importância que o seu trabalho desde cedo assumiu no panorama artístico nacional e internacional, apesar de – e também contrariando – um estranho desconhecimento que persiste ainda hoje em relação à sua obra, inclusive nos meios artísticos e culturais brasileiros. Encontramos aqui um conjunto de 22 artistas e 37 obras – resultado de uma escolha bastante difícil – entre muitos outros que por diversas razões se viram impossibilitados de estar presentes. Importa reforçar que, no recorte temporal referido, muitos foram os criadores importantes que se serviram da tecnologia, mecânica ou digital, na sua ação criadora e produtiva. Apesar da excelente dimensão do espaço expositivo, seria fisicamente impossível incluir todos. Ficamos assim com uma mostra – entre outras possíveis – que julgamos representativa da arte tecnológica brasileira. Incluímos vertentes como a arte cinética e sonora, a videoarte e o mapping, a instalação e a bioarte, a robótica e a interatividade numa panóplia diversificada e exemplificativa, ruidosa e colorida, tão ao gosto dos tempos modernos. Os artistas aqui presentes são: Abraham Palatnik, André Parente, Angela Detanico & Rafael Lain, Chelpa Ferro, Eduardo Kac, Fernando Velázquez, Floriano Romano, Leandro Lima & Gisela Motta, Letícia Parente, Marcelo Moscheta, Mariana Manhães, Marssares, Mauricio Salgueiro, Milton Marques, O Grivo, Paulo Bruscky, Paulo Nen"idio, Paulo Vivacqua, Pedro Paulo Domingues, Rafael França, Regina Silveira e Sonia Andrade. PRIMEIRA SALA – ANOS 60 A 90 A cidade – pioneirismo, experimentação, crítica social A cidade cedo se revelou como a mais completa e complexa invenção do homem, berço de todas as descobertas e destino de todas as invenções, caldo profícuo e criador de todas as correntes e vanguardas, destino de todas as viagens em procura de enriquecimento financeiro ou cultural, pano de fundo escolhido para uma vida de possibilidades cumpridas e conquistas realizadas. Mas também, imediatamente, prisão dourada a encurralar e a reduzir o homem moderno, perdido numa corrida louca e circular rumo ao dia a dia – produtivo e escravizante, frenético e infinito – da dura e competitiva realidade urbana. Considerando a enorme onda contestatária e de contracultura que varreu na década de 1960 todo o espectro ocidental – à procura de uma alternativa a essa realidade do homem mecanizado e mero objeto, refém de correntes de produtividade e normalização impostas, de valores éticos, profissionais e culturais; e tendo em conta o contexto particular que o Brasil vivia na época – refém de uma ditadura feroz, particularmente durante os chamados anos de chumbo, entre finais dos anos 60 a meados da década de 1970 –, é imprescindível sublinhar aqui a atividade artística de alguns criadores que já nessa época apontavam caminhos, desbravavam conceitos e iniciavam um percurso – impensável para o homem comum – de inovação inventiva e artística com forte consciência e crítica política, social, ética, cultural. Para alguns, serviria a própria realidade urbana que os rodeava – no seu alto contraste de deslumbramento luminoso modernizado e ruidosa marcha mecanizada; de multidões (des)ordeiras perdidas no caos cotidiano mas também do acesso iniciático e aparentemente ilimitado a um admirável mundo novo de possibilidades, mecanismos e experiências por descobrir –, a cidade; como sumário criativo, inspirador e revelador, desse trabalho de apontar caminhos e descobrir amarras. Uma construção ainda inicial, mas firme e decidida, de uma obra e percurso pertinentes, atentos, inventivos, maravilhosos. Esses artistas se revelariam, muitos anos depois, visionários verdadeiramente privilegiados na sua releitura criativa, clara e incisiva, transformadora e paradigmática de uma realidade pós- -moderna dura e difícil. Uma realidade já claramente formatada num crescente e circundante domínio uniformizado: tecnológico e artificial, político e social. Um desafio crucial à individualidade, criatividade e liberdade; fundamentais condições para a plena existência do indivíduo no espaço contemporâneo. Mauricio Salgueiro nasceu no Espírito Santo em 1930, partindo aos seis anos para o Rio de Janeiro. Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes e aperfeiçoou seus estudos de escultura em metal em Paris e em Londres. Foi professor em várias escolas, institutos e universidades, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo; participou, a partir de meados dos anos 60, de várias bienais e salões de arte moderna, no Brasil e no mundo. Pioneiro da arte tecnológica no Brasil, as suas esculturas sonoras, luminosas e mecânicas logo incorporaram elementos da realidade urbana, como buzinas e semáforos, movimentos de marcha sincopada e ruidosa, e o uso de lâmpadas fluorescentes num jogo cromático e mecanizado de fascínio e beleza. Sempre interativos, seus trabalhos proporcionam ao espectador uma experiência profunda de expectativa e deslumbramento, através da brilhante reutilização e ressignificação de elementos do cotidiano, numa nova forma escultural e plástica, reflexiva e envolvente, de enorme valor artístico. Incluímos nesta mostra um conjunto representativo da produção do artista, num total de 10 obras. Elas representam alguns momentos significativos de um recorte de três décadas de produção, utilizando recursos tecnológicos que, se hoje nos parecem bem ultrapassados, eram absolutamente inovações naquela época. A Urbis II (1964), semáforo sonoro incoerente e aleatório, a confundir instruções num tráfego caótico e irritante; a Vênus androide I (1998), escultura mecânica cujos movimentos de marcha ruidosa aplicados a um arquétipo feminino de fertilidade e beleza – feito totem de aço frio – parecem falar da inalcançável distância que nos separa de um sensível primordial; a Poça (série Vazamentos, 1985), surpreendente hino a um masculino falhado e redundante, plástico e ôrganico, na sua avermelhada prisão oleosa, imponente e afirmativa; A lâmina (1969), enorme e ondulante folha de aço reflexivo, paródia meio descontrolada e barulhenta, ao espelho, nota breve de um ego destruído pela força mecânica que o imita, distorce e desfigura; a Urbis V (As vizinhas) (1965); em que aquilo que ali dizemos é escutado em outro lugar, sem que o saibamos e ao vivo, visionária referência crítica – e tão atual – a questões como a privacidade, o uso perverso da tecnologia, o poder controlador de um estado que espia seus cidadãos; e as várias Esculturas luminosas I, III, IV, VII e X (de 1963 a 2011), belas referências cromáticas de luz e cor aos enormes edifícios que habitam e habitamos – supremos e sublimes, imóveis e altivos –, os mais elevados e dominantes lugares das nossas populosas e caóticas cidades modernas. Destas destacaremos a Escultura luminosa X (1968-2011), em que o interior belo e confuso de fios e fichas coloridas é deixado a descoberto pelo artista, descoberta em simbólica revelação da vida interior – desordenada e obscura, revolta e conflituosa –, que alimenta e preenche o âmago vital de qualquer estrutura. Essa obra forte e metafórica, cheia de beleza e confusão – e também claramente remetente às enormes construções habitacionais dos grandes centros urbanos – reúne em simples e sedutora disposição essas duas facetas fundamentais da realidade tecnológica que nos rodeia: por um lado, uma exterioridade sedutora e funcional, bela e prática, disponível e aberta; por outro, encerra em seu interior a teia inescrutável de relações e sobreposições, contaminações e dispersão, que apenas percebemos assim: simbolicamente apresentadas numa obra de arte penetrante, significativa, sedutora e envolvente.... ...Talvez esse cosmos vivo de Palatnik represente, nesse ambiente expositivo, o ponto de fuga visual e simbólico, distante, mas desejado: o ambiente urbano complexo que fomos aqui construindo. A representação poética e ambiciosa de dimensões e vontades maiores escapam ao seu parco e ruidoso entendimento e pequenez. Pois na ensandecida vivência da realidade confusa e limitante da casa e da cidade, o homem procura ainda, no alto exterior, no que ainda não abarca nem compreende, um sentido maior para esse cotidiano acelerado e redutor. Algumas obras parecem descrever claramente esse débil estado à mercê da dura realidade urbana e doméstica (Salgueiro, França e Andrade), a procura de uma expressão/comunicação íntimas e autênticas (Parente e Bruscky), que contrariem o automatismo e a limitação – a regulação – impostos pelos meios e mecanismos então disponíveis (Palatnik, Salgueiro e Silveira). Pois na era da viagem à Lua e do progresso da ciência, da inovação tecnológica e da produção em massa e no meio de diversas restrições e convulsões de ordem política e social, os artistas procuravam, mais à frente e noutras enviesadas direções, diagnosticar uma sociedade febril e voraz, seus ritmos imparáveis e mecanizados de produção e consumo, a ausência de padrões de criação e liberdade pensados e aplicados à frágil e delicada – mas enérgica e expressiva –, escala humana.