“O Artista e seu Estúdio” Mauricio Salgueiro


Edyla Mangabeira Unger. “O Globo”, 17 agosto 1966


No Cosme Velho, com suas velhas casas, metidas em jardins, e obstinadas em lembrar tempos vividos, as esculturas inclementes do “atelier” de Maurício Salgueiro são como versos de Evtuschenko lidos ao som de uma valsa de Strauss.

Este moço escultor, que de engrenagens gastas, placas enferrujadas e inúteis objetos de metal, ao acaso encontrados, reconstrói, sem lirismo, o que há de mais soturno na vida urbana das civilizações modernas,passou dos pássaros estranhos, pesadelos de ferro às estruturas atuais, às quais incorporou o som e a luz. O grito das buzinas, de campainhas estridentes, e a luminosidade fria do néon trouxeram, as suas esculturas, segundo explica, a auto suficiência que se tornara imprescindível, para que elas funcionassem de maneira eficaz. “Abstraí a figura humana, mas sua presença, embora não evidente, permanece, porque ela está contida em tudo o que o artista faz”.

Maurício Salgueiro nasceu em Vitória do Espírito Santo em 1930. Ingressou para a Escola Nacional de Belas Artes da Universidade do Brasil em 1950, aperfeiçoando, depois, os seus estudos na “Academia do Feu”, em Paris, e na Bromley Art School, em Londres. Obteve medalhas em vários Salões e Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, no Salão Nacional de Belas Artes. Além de obter o Prêmio Nacional de Escultura no I Salão de Arte Moderna de Brasília, em 1964, recebeu “Isenção de Juri” no Salão Nacional de Arte Moderna e figurou no “Resumo JB” de 1965. Realizou várias exposições individuais, através do país, e participou de coletivas, aqui e no estrangeiro. Trabalhos seus figuram em diversos museus do Brasil, bem como na União Pan-Americana e no Brazilian American Cultural Institution deWashington, além de coleções particulares, entre nós e no exterior. Com essa sua temática agressiva, Maurício Salgueiro não se deixa embalar pela cantiga simples do regalo que corre atrás do seu estúdio, verdadeiro refúgio de metais e peças enjeitadas. Com a solda de operário, ele recria a solidão do mundo em estruturas de algum modo inspiradas nas próprias engrenagens de que eles foram parte. Abstraindo o homem, revela até que ponto este foi relegado pela presença, cada vez mais possante, dos monstros que forjou nas civilizações moderna.

Mas do caos é que nascem as estrelas e, segundo lembra este moço escultor: “As necessidades do presente é que mostram os caminhos do futuro”.