DA SUCATA À LUZ DECOMPOSTA


HARRY LAUS. XI Bienal Internacional de S. Paulo – 1971 SALA ESPECIAL – “Novas Proposições”


Três proposições mecanizadas são a contribuição do escultor Maurício Salgueiro ao setor “Proposições” da XI Bienal de São Paulo: “A Lâmina”, “Acabamento” e “Curtição”. Nas duas primeiras, a proposta principal é o som, produzido pela chicotadas de uma lâmina de aço, quando se comprime o botão de um interruptor elétrico. A eletricidade também está presente na terceira escultura, a mais recente e original pesquisa do artista. Com ela, Salgueiro se afasta da deliberação sonora para o romantismo da cor, utilizada indiretamente pela decomposição do raio luminoso nas cores do arco-íris. O resultado é a dança de pequenas flores refletidas numa tela branca de nylon que gira. A participação do espectador neste trabalho também é indireta. Mas indispensável: só aparecem as flores luminosas quando alguém se desloca do outro lado da tela. “Curtição” dá um novo sentido à dinâmica da arte cinética, recorrendo a elementos exteriores para realizar-se integralmente.

De início preocupado em refazer a figura (humana ou de animais) com o emprego das mais variadas sucatas, Maurício Salgueiro elaborou em 1963 uma “Coruja” cujos olhos eram dois faróis de automóvel. Sem luz própria mas já contendo a valorização dos reflexos sobre a superfície convexa e lapidada do vidro, essa escultura pode ser considerada o ponto de partida para a “Curtição”. Entre uma e outra desfilam dezenas de trabalhos, todos marcos de uma carreira movimentada e brilhante, pontilhada de prêmios e exposições no Brasil e no exterior. A luz ganha relevo com a utilização de sinais de trânsito, luzes pisca–pisca, lâmpadas de luz fria colorida; o som entra em ação pela integração de buzinas, sirenes, autofalantes e lâminas vibráteis nas esculturas. A sequência é lógica, coerente e progressiva, compreendendo o uso de meios mecânicos cada vez mais inovadores.

A grande metamorfose na carreira de Salgueiro começou logo após seu regresso da Europa, onde passou dois anos como premiado no Salão Nacional de Belas Artes, em 1960. Foi a partir de então que rompeu com a escultura figurativa em materiais da tradição. E dizemos começou porque ele, desde essa época, não cessou de renovar-se. Analisando-se a última década de sua produção, pode-se afirmar que Mauricio Salgueiro é o escultor brasileiro mais inquieto e inventivo, trabalhando sempre dentro do espírito de nossa época com propostas de luz, som e movimento que o colocam, com realce, no conjunto atuante da arte de vanguarda mundial.