SOM E LUZ DE MAURICIO SALGUEIRO


HARRY LAUS. Jornal do Brasil – 13 de maio de 1966


O Museu de Arte Moderna inaugurou ontem uma exposição individual do escultor Mauricio Salgueiro, reunindo oito grandes trabalhos que refletem as pesquisas de luz e som ultimamente feitas pelo artista.

Analisando-se a obra de Salgueiro após seu regresso da Europa, onde esteve em gozo do Prêmio de Viagem ao Estrangeiro pelo Salão Nacional de Belas-Artes, notamos de imediato uma necessidade irresistível de descobrir novos caminhos de expressão artística, próprios dos movimentos de vanguarda.

Figuras de luz


Inicialmente preocupado em refazer figuras (humanas ou de animais) com o emprego de objetos metálicos os mais variados, encontrados em depósitos de ferro velho, chegou a construir uma coruja, datada de 1963, cujos olhos eram dois faróis de automóvel.

Sem luz própria mas já contendo a valoração dos reflexos sobre a superfície convexa e lapidada do vidro, pode ser considerada o ponto de partida para os trabalhos subsequentes. Vale salientar neste ponto que, com trabalhos desta natureza, obteve o Prêmio Nacional de Escultura no I Salão de Arte Moderna do Distrito Federal, em 1964.

Ainda em 1964, inicia a fase em que o emprego da luz (sinais de tráfego, luzes pisca-pisca) começa a entrelaçar-se com o som de buzinas e sirenes. Já então a figura foi totalmente esquecida e o escultor é levado a valorizar o conjunto mais ou menos abstrato mediante a soldagem de peças metálicas irregulares para que os reflexos luminosos ganhassem novos efeitos. As esculturas dessa fase deram a Salgueiro o Prêmio Esso de Escultura, em 1965, tendo sido selecionado para representar o Brasil na Bienal de Paris. No mesmo ano recebe Isenção de Júri no Salão Nacional de Arte Moderna e o Prêmio de Escultura no III Resumo de Arte do JORNAL DO BRASIL.

Cabe aqui um registro curioso: na Bienal de Paris, a polícia não permitiu o funcionamento da sirene “porque os parisienses já haviam sofrido demais durante a guerra com ruídos desta natureza”. Na mostra do MAM o escultor pretende não ser prejudicado, com a mesma escultura que esteve em Paris.

Na Bienal


Para a Bienal de São Paulo, preparou três peças – todas aceitas – onde a preocupação fundamental era a luz, não contendo elementos sonoros. Tratava-se apenas de conjugar cores variáveis de lâmpadas de luz fria, colocadas paralelamente em superfícies metálicas planas. (Duas destas esculturas estarão na mostra do Museu). Sem aprofundar esta experiência que pretendia, de certa forma, fixar um dos aspectos de nossa civilização atual, Isto é, os anúncios luminosos, sua insatisfação e espírito de busca conduzem-no a nova reformulação artística: o emprego da voz humana na escultura.

O grande trabalho intitulado Urbis III, formado de dois conjuntos monumentais, encarrega-se de mostrar a experiência. O primeiro, em toras de madeira e placas de metal, representando um conglomerado humano (note-se as pequenas janelas com pessoas, animais, vasos de flor) possui um microfone supersensível que transmite ao segundo as conversas e ruídos do público, que saem ampliadas em possante alto-falante do segundo conjunto, onde foi pintada uma boca. A intenção do autor, segundo nos declarou, é de crítica a certa camada social que sente “verdadeira necessidade orgânica de saber da vida alheia e divulgá-la”.

Outros efeitos


Paralelamente a esta ideia, surge outra que a nosso ver poderá e deverá ser melhor explorada para a obtenção de efeitos superiores aos já conseguidos. À entrada da exposição há uma escultura em madeira pintada de branco onde duas luzes a neon, uma azul e outra vermelha, revezam-se para alterar a colocação de pequenas zonas de cores diversas pintadas em quadrados ou retângulos. Assim, quando a lâmpada azul se acende, o laranja vira terra, o vermelho fica cinza, o violeta transforma-se em marinho; chegando a vez do vermelho, o laranja e o amarelo ficam limão, o verde aparece cinzento, o violeta torna-se magenta, etc.

De tudo que foi dito fica patente a inquietação do artista que a partir de 1963 renova-se sem cessar, ainda que sempre preso aos dois elementos fundamentais de suas criações: o som e a luz. Sua fúria inventiva, no entanto, precisa ser melhor contida e controlada para que as descobertas sejam levadas até as últimas consequências, sob pena de ficarem apenas como sugestões ou receitas para outros bandeirantes.

Há ainda um ponto que queremos registrar: o lado humanamente comovedor da escultura de Mauricio Salgueiro. Apesar de lutar com grandes e compreensíveis dificuldades de ordem material para realizar seus trabalhos, persiste no ideal artístico, embora sabendo que muito dificilmente venderá o que produz. Numa época em que outros artistas chegam a ter equipes para pintar seus quadros e vende-los ainda frescos ao comprador faminto, é mais um voto de louvor que o escultor merece.