A BIENAL DE PARIS E A PRAÇA ROOSEVELT


FREDERICO MORAIS. A Poética da Máquina Cap. V/1


Em 1965, participa de Bienal de Paris, com duas esculturas da série “Urbis”. Estruturas de ferro dotadas de som e luz, as duas esculturas provocaram inquietação nos dirigentes da Bienal. Conta-se que elas quase foram impedidas de ser expostas, devido à sua sonoridade estridente, que reavivava nos franceses as lembranças traumáticas da guerra. Decidiu-se, então, expô-las em um espaço fechado, com isolamento acústico, o que foi visto como uma forma disfarçada de censura estética, afastando-a do público. Notícia divulgada pelo Jornal do Brasil, em 13 de maio de 1966, diz que a polícia francesa tentou proibir o funcionamento da sirene de sua obra, alegando que “os parisienses já haviam sofrido demais durante a guerra com ruídos dessa natureza”. Os críticos Georges Orley (Studio International) e Pierre Restany (Domus) elogiaram o envio de Salgueiro. O primeiro comenta suas esculturas ao lado das obras dos artistas alemães Günther Uecker, Heinz Mack e Otto Piene, do Grupo Zero, dizendo que “som e luz encontram-se envolvidos em rígidos planos de escultura em metal”, enquanto Restany afirma que “as montagens de objetos com elementos audiovisuais integrados de Maurício Salgueiro mereceriamm figurar entre os premiados”.

O episódio da Bienal de Paris foi o primeiro de uma série de incidentes que marcariam a trajetória das esculturas sonoras de Salgueiro, que sempre despertaram no público, na crítica e nos dirigentes culturais, um misto de atração e repulsa. O que significa dizer, também, que ninguém permanece indiferente às suas criações plurisensoriais e interativas. O mais grave desses incidentes ocorreu na Praça Roosevelt, São Paulo, em 1970, durante a mostra “10 escultores brasileiros de vanguarda”, na qual sua escultura “Acabamento 2B”, do mesmo ano foi quase totalmente destruída. Consistia a escultura em uma lâmina de aço medindo 320x120x120 cm, presa a um motor industrial, localizado na parte inferior da peça e que se podia ver através do acrílico transparente. Acionado o motor, a lâmina se movimentava em ondulações viris, gritando, uivando, gemendo. Fazia tanto barulho que cerca de 40 moradores da vizinhança da praça, em sua maioria mulheres, armados de cabos de vassoura, canos de ferro, pedras e outras armas improvisadas atacaram com violência a escultura. A prefeitura de São Paulo, responsável pelo evento, pagou os custos de reconstrução da peça e o artista, em reunião com os moradores, estabeleceu um novo horário para seu funcionamento: das 17 às 19 horas. Salgueiro considerou o acordo positivo mas, ainda assim, observou: “Aquelas pessoas que apedrejaram a escultura, quebrando a caixa de acrílico, arrebentando os fios da instalação e amassando a lâmina de aço, agiram de forma preconceituosa contra uma obra de arte. Um morador da cidade não esmurra ou apedreja sinais luminosos, usando-os como válvula de escape”.