O SOM


FREDERICO MORAIS. De “A poética da Máquina” - Capítulo V / 1


Um outro aspecto da sonoridade escultórica de Salgueiro é o emprego da voz humana na obra “Urbis III” que fez parte de sua individual no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1966, e cinco anos depois, da coletiva “10 artistas nacionais”, realizada no Paço das Artes, na capital paulista. Descrevo-a, sucintamente. São duas estruturas de madeira, verticais como os velhos postes, ligadas por fios elétricos, mas distantes uma da outra em cerca de 20 metros. Pequenas fotografias, emolduradas como se fossem janelas, figuram moradores de um hipotético edifício. Um microfone supersensível implantado na primeira estrutura, transmite à segunda estrutura, conversas e ruídos diversos, ampliados por auto-falantes. As expressões curiosas e um tanto cômicas das mulheres indicariam, de acordo com o artista, a nossa tradição ibérica do cochicho, da fofoca e da maledicência. A conversação que os visitantes mantinham entre si numa das extremidades do trabalho e que incluíam, obviamente, opiniões sobre a própria obra, estava sendo ouvida e comentada pelo público que se encontrava no outro extremo, transformando, assim, sua instalação, em um debate aberto. Esta experiência já fora vivida por Salgueiro, que fazia ecoar para dentro do seu ateliê do Cosme Velho, através de fiação ligada a um amplificador, a sonoridade da rua.