A Escultura Cinética no Espaço Público: Dois Estudos de Caso


ALMERINDA DA SILVA LOPES. Vitória, ES – 2010


A primeira obra em destaque, denominada Monumento à Mãe, foi doada pelo autor, o escultor capixaba Maurício Salgueiro (1930) à Prefeitura Municipal de Vitória, capital do Espírito Santo, que a instalou na Praça Costa Pereira (1972). Formado pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, da qual foi também professor, o artista especializou-se em metais na Europa, com o prêmio de Viagem conquistado no Salão Nacional de Arte Moderna (1960). Passaria a produzir, logo depois, obras cinéticas dotadas de luz, som, e movimento, disputando com Dan Flavin o pioneirismo no emprego de lâmpadas fluorescentes coloridas na produção de esculturas luminosas, com as quais obteve reconhecimento e angariou importantes prêmios em salões e concursos nacionais e internacionais.

Em um meio ainda fortemente apegado aos valores plásticos tradicionais e representativos, a gramática adotada na obra não seria bem digerida e o processo de inserção de uma escultura vanguardista em espaço público não ocorreria de forma tranquila ou natural. Além da costumeira burocracia, o processo exigiu o convencimento dos governantes municipais, razão pela qual as negociações tiveram início em uma administração e a instalação da obra só se concretizou no governo seguinte.

Na formulação da escultura, o autor utilizou correntes de navio e fragmentos geometrizados de ferro soldados entre si, para construir uma estrutura em cúpula ou cápsula entreaberta, que faz lembrar um prato de balança / berço / ninho. As texturas rugosas da solda corporificam a ação ou os gestos pulsantes da mão do artista, e contrastam com outros elementos abstratos, também em metal, acondicionados nessa cúpula / ninho: duas esferas de ferro de superfície lisa e brilhante, de volumes diferentes. As esferas estão unidas por uma linha sinuosa, que representa o cordão umbilical, simbolizando, portanto, a fecundação no útero materno ou a gênese da criação suprema do ser. A cápsula / ninho aconchega e embala esse ser em formação, içada por três correntes de ferro, unidas na extremidade superior por um gancho / âncora, o que sugere que a pesada obra poderia se movimentar, de maneira similar aos móbiles de Calder.

Desse gancho parte uma corrente mais extensa, que se prende à intersecção superior de uma base tubular de ferro definidora de um oval. Se visualizada de frente, se constará que essa estrutura tubular fixada ao solo, envolve, protege e mantém o ser em suspensão, e originalmente submergia do espelho de água de um pequeno lago, que remetia ao líquido amniótico.