A POÇA - A arte Cinética e as Máquinas Pulsantes de Maurício Salgueiro


ALMERINDA DA SILVA LOPES. Anais do XXV Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte Outubro – 2005


A outras esculturas dessa micro-série o artista parece atribuir uma conotação erótica, a exemplo do que ocorre em Vazamento XI – A Poça. Esta, ao ser acionada faz jorrar um líquido viscoso, de odor característico, e pouco depois de iniciada essa contração espasmódica, surge, inesperadamente, de dentro do cubo – que esconde a bomba hidráulica e o sangue ou sêmen-, uma viril forma cilíndrica, de tamanho avantajado, construída com resina vermelha, cujo formato remete de imediato a um falo. A sugestão da forma citada e o movimento que ela empreende são reconhecidos e associados a uma ereção peniana, provocando comentários e reações inusitadas dos interlocutores.

Depois de se manter exposto por alguns segundos, o cilindro vai-se recolhendo gradativamente, até submergir por inteiro dentro do corpo da escultura, quando se ouve o som de um suspiro exaurido, deixando o interlocutor em dúvida: trata-se de gemido de prazer ou de dor? Ao encerrar o seu ciclo convulsivo, permanece no lugar do falo, apenas uma poça de borbulhante líquido vermelho, que já não tem força para deslizar pelas paredes da caixa.

Se tal encenação parece traduzir a ideia de excitação sexual, por outro, o sangue e o suspiro debilitado da escultura, no final do ato, não deixam de aludir também às atrocidades físicas impostas aos presos políticos, durante as famigeradas sessões de tortura, nos “anos de chumbo”.