ORDINÁRIO MARCHE


ALMERINDA DA SILVA LOPES. COMITÊ BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA ARTE - Outubro 2005


Se na década de 60, o artista priorizou a criação de objetos com luz e som, ainda no final dessa mesma década iniciava a construção de esculturas de complexidade e dimensões ainda maiores, nas quais se percebe um sentido irônico. Por meio delas tanto se refere à triste memória da ditadura militar, em especial à interferência da censura na arte, após a promulgação do Ato Institucional nº 5, como metaforiza determinadas aspirações, tabus ou sentimentos humanos.

Num primeiro grupo inclui-se a micro-série batizada de “Ordinário Marche!”, iniciada em 1969, composta de esculturas que possuem forma e arcabouço construtivo similares, considerando que são constituídas basicamente de um prisma de bases triangulares revestidas de acrílico, e três pés de ferro. No interior desses sólidos – que possuem pequenas diferenças de cor e funcionamento aloja-se um conjunto de peças, como roldanas, engrenagens, socorros eletromecânicos, para fazê-los movimentar-se. Esses objetos estranhos, ou geringonças mecânicas lembram seres acéfalos, de corpo rígido e sombrio. Ao serem acionados pelo público ao simples toque no interruptor, empreendem um movimento ascendente e descendente, por meio de um mecanismo que reveste e desliza em torno dos pés da escultura, o que dá a ilusão de que estes se levantam e se deslocam no espaço, embora não saiam do lugar. O movimento brusco e desengonçado da máquina–escultura produz um som monótono e repetitivo, que faz lembrar a cadência ritmada de uma marcha, mas também o peso das botas dos militares e o clima aterrorizante que ele suscitava.

Esse conjunto de obras teve início após a prisão de Salgueiro, juntamente com o artista, amigo e colega professor da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, e também conhecido militante do Partido Comunista, Quirino Campofiorito (1902 – 1993), depois de serem abordados e identificados por militares, pouco depois de visitarem a Bienal de São Paulo, quando se preparavam para deixar a capital paulista em direção ao Rio de Janeiro, segundo declaração de Salgueiro à autora, em junho de 2005.