ANDRÓIDE: A VÊNUS SILICONADA


de "A Poética da Máquina". Capítulo V. Frederico Morais


... O “androide” de Salgueiro, em fase de conclusão, é uma réplica da Vênus de Milo, que foi esculpida originalmente em mármore, por autor desconhecido, do século II a.C. Exposta em caráter permanente no Museu do Louvre, em Paris, a escultura grega é uma das obras mais populares da história da arte, adotada pelo grande público como um padrão universal da beleza. Para realizar seu “andróide”, Salgueiro concebeu e realizou sofisticado mecanismo que lhe permite produzir movimentos corpóreos, enquanto busca traduzir com a maciez da pasta de silicone a sensualidade cálida da epiderme feminina.

Estando a obra inconclusa, creio ser prematura uma análise sobre sua semântica e sintaxe. Mas posso falar de minhas expectativas em relação à obra. Ou de sensações.

Antes mesmo de ver as primeiras versões de seu “andróide”, mas informado sobre o andamento de suas pesquisas, iniciadas na década passada, fiquei a imaginar em que resultaria a substituição da frialdade e dureza do mámore, com seu ranço autoritário, pelo calor e maciez do silicone. A sensação que eu esperava experimentar era a de um corpo que respira, que age de modo quase imperceptível. O mármore encarnado, isto é, fazendo-se carne, pele e poros. Calor e ardor. Carnalidade, dizem os dicionários, é sensualidade e concupiscência, e encarnação significa, em teologia, o mistério pelo qual Deus se fez homem. Assim, encarnar diz respeito a uma prática específica (dar cor de carne às imagens, estátuas ou objetos), quanto personificar, deixar penetrar o espírito no corpo, tomar vulto, entranhar-se, enraizar-se...

...Um curta-metragem realizado pelo filho do artista, homônimo do pai, documentando a primeira fase do trabalho, mostra a engrenagem mecânica substituindo o organismo do homem. Nessa etapa, Vênus é tão somente a nudez do ferro. a máquina descarnada, desprovida de qualquer disfarce. Na etapa seguinte, Salgueiro vestiu esse corpo-máquina com uma nova pele, a da arte, sublimando, visualmente, sua realidade mecânica, sem negá-la, porém.