FALANDO DE INFLUÊNCIAS


Depoimento/resposta à pergunta sobre "influências recebidas" formulada por uma estudante de arte que preperava tese sobre sua obra.


Acredito que meus trabalhos, como qualquer produção artística ou não sejam produtos de uma acumulação de experiências que vêm se sucedendo durante toda a vida desde a infância. Ela é mais ou menos intensa dependendo da época e de certas circunstâncias.

Morar numa “URBIS” (genitivo – da cidade) como Paris foi um momento marcante assim como visitar quase todos os países da Europa, suas capitais e interiores, importantes “URBIS” com características e personalidades próprias, especiais e bem definidas. Sociedades latino-americanas como Paraguai e Perú onde estive alguns meses deixam resíduos indeléveis, especialmente depois de se ter morado, com residência fixa na Espanha, onde a figura do “sereno” da época de Franco mistura os “vizinhos” de uma forma inusitada. A Grécia de um modo geral e em especial Atenas e Tessalônica com séculos de dominação turca se resvalam neste aspecto camuflando o disse me disse com belas treliças. Levei de carona um rapaz grego que frequentava nosso grupo em Paris e que nos ciceroneou nos 3 primeiros dias; no quarto dia ele tinha que ficar em casa pois a irmã ia receber o namorado o que acontecia uma vez por semana com a presença de toda a família.

A arquitetura de 60 ou 70 anos atrás acompanhava bem estes hábitos e os favorecia com seus balcões nas fachadas das casas menos sofisticadas de “altos e baixos” ou mesmo só de baixos.

E não é privilégio das sociedades latinas. Em toda a Europa você encontra antigos casarões habitados por várias famílias com fronteiras não tão bem definidas entre os “vizinhos” e sempre atentas ao que vem e ao que vai. Eu morei neles na Alemanha e na Inglaterra.

As informações de todas as partes do mundo você recebe, no momento e na íntegra, em cidades como Paris, Nova York ou Londres. Tudo o que acontece chega com detalhes e qualidade. Constatei que Paul Taylor visto em Paris não é o mesmo Paul Taylor visto no Rio de Janeiro; vivi esta experiência. A renovação que se encontra nos movimentos de grupos como este nos encaminham a uma reflexão sobre a produção artística em geral. Pouco antes eu tinha me interessado pelos pronunciamentos sonoros de Pierre Schaeffer que muito me marcou e que influenciam, com certeza, os critérios sobre arte. Ouvir a música concreta deste artista Frances é enveredar pelos meandros do nosso cotidiano com toda a física que nos acompanha e que trazemos do nosso curso secundário, seus movimentos uniformemente acelerados ou retardados, frequências, volume, a identificação som/movimento/realidade, os efeitos Fiseur...

Não creio que tenha tido influência direta de algum artista em particular mas as visitas a galerias de vanguarda como Iris Clert e outras, o contato com críticos e artistas como Pierre Restany, Arman, Yves Klein, Paul Bury sem dúvida me trouxeram acréscimos.

Estar presente na exposição em que Arman apresentou suas “acumulações” com texto de Restany – “A lógica formal dos objetos” – foi uma excelente experiência.

A produção do Tinguely que vim a conhecer na Bienal de São Paulo e gosto muito se apoia frequentemente em inércia e se identifica com o movimento. Dada no que concerne a sua preocupação com fim, com destruição.
A década de 60 foi especialmente importante – o movimento hippie, o rock, Woodstock, paz e amor, a chegada do homem à Lua etc., etc., etc.

Movimento e som vêm surgindo nos mais variados momentos da história.

As Panateneias já caminhavam pelos frisos do Parthenon há muitos séculos e mereceram de minha parte uma homenagem no trabalho “Passeando com as Panateneias” que seria exposto na sala especial “Novas Proposições” da Bienal de São Paulo de 71 acompanhando um outro trabalho “Lâminas” (Frustração Erótica – Revista Veja 15/09/71) que foi exposto apresentando uma possível relação entre a Vênus de Milo e o Apolo. Texto de Harry Laus no catálogo.

Na década de 10 os futuristas já realizavam consertos de ruídos.

Os happenings e as performances enriqueceram muito as linguagens artísticas chegando a extremos; Schwartzkogler se matou numa delas; Marina Abamovic se expôs a toda sorte de “torturas” em suas propostas; Murce Cunninghan e a renovação dos movimentos desenvolvidos na América deram uma nova dimensão a percepção do processo artístico. A liberdade e os novos critérios que se podia ler nas obras que então vinham sendo apresentadas por grupos ou artistas americanos como Carolee Schneemann, Trisha Brown, Claes Oldenburg, John Cage, Varese, Ann Hauprin, ...são definitivos na compreensão da arte atual. Impossível também deixar de fazer referência aos inúmeros grupos experimentais que se formavam numa troca permanente de conceitos.

E o samba. Joãozinho Trinta fez uma das mais significativas apropriações dos movimentos das Panateneias que se tem notícia; Forma, luz, cor, som e movimento vivem momentos muito especiais nesta nossa manifestação de arte. Levei a PORTELA ao Espírito Santo para uma exibição histórica por todo o centro da cidade de Vitória – “URBIS VITÓRIA” – uma aula de beleza que não deveria ser esquecida.

Se for tentar localizar minhas influências, não posso deixar de me lembrar de momentos de épocas passadas que se instalaram na minha memória como a preparação para o vestibular de engenharia com cálculos, equações, regras, regulamentos... ...a beleza da física e da química, marchar numa parada de 7 de setembro, enfrentar a “disciplina” de colégios religiosos, ser expulso de dois deles, aquelas professoras de outros colégios, as minhas peladas nos terrenos baldios, nas praias ou nos descampados do interior. Levava muito a sério meus alunos que iniciavam o ginásio quando eu estava a terminá-lo com minhas aulas de geometria e matemática. Destruir os brinquedos que ganhava para ver como eram por dentro e como eram fabricados.

E tantos outros que todos nós temos e que nos guiam em cada passo que damos.

MAURICIO SALGUEIRO