Exposição Reinventando o Mundo - Museu da Vale, Vitoria do Espírito Santo, 2013


Franklin Espath Pedroso, Jorge Emanuel Espinho


Reiventando o Mundo


Arte e Tecnologia

Incontornável paradigma dos dias atuais: a realidade tecnológica e virtual em que
vivemos submergidos transformou radicalmente todos os aspectos da nossa vida,
nas suas principais e mais diversas vertentes. Se o advento da máquina e da automação
prometia libertar o homem de funções meramente mecânicas e funcionais,
permitindo-lhe dedicar-se a tarefas eminentemente lúdicas e enriquecedoras, todos
somos, hoje, testemunhas da dependência total – e muitas vezes absurda –
que o meio tecnológico e especificamente a internet imprimem e assumem no
cotidiano. Esse pretenso efeito automático, de nós bem conhecido, manifesta-se
radicalmente no dia a dia: na forma como nos comunicamos e exprimimo-nos,
na maneira como acedemos e criamos a informação, na relação com o mundo e
com o tempo, no trabalho e no lazer, no aparecimento de relações estritamente
virtuais, em tudo o que somos e nos rodeia. Estruturas de informação e comunicação
que eram, até há bem pouco tempo, perfeitamente válidas e comuns foram
irremediavelmente ultrapassadas por uma cultura global de imediatismo, simultaneidade,
acessibilidade e exigência. Não discorreremos aqui sobre o valor do que
terá sido, talvez, para sempre perdido. Olharemos, antes, o presente, miríade de
infinita luz tecnológica e virtual, que todos habitamos, indefectíveis e orgulhosos.


O fenômeno da internet, advento total que trouxe à luz do tempo presente
o acesso a vozes, contextos, realidades e memórias até então inescrutáveis – além
de condicionantes de ordem geográfica, social, cultural ou política – expressa-se
hoje de forma tão englobante e complexa que é difícil fazer dele um diagnóstico
ou aproximação profundos. Destacaremos talvez a produção de conteúdos
e sua fácil disseminação em rede planetária, como um dos maiores avanços da
globalização na era da informação. Atualmente, são várias as manifestações sig-
nificativas e seus resultados transformadores – com origens e efeitos de ordem
política, cultural e social – que se originaram e alimentaram-se na web. Aqui, se
a forma não faz o conteúdo, em muito o influencia e facilita. A rapidez, a eficácia
de produção e a consequente difusão de temas e assuntos de natureza política,
artística e cultural serão seguramente algumas das maiores conquistas da nossa
era. O caráter expressivo, crítico e criativo – potenciado pela tecnologia infocomunicacional
de que hoje dispomos – será um dos grandes modelos e padrões a influenciar, também, todo
o tempo futuro.


Mas aqui nos interessam mais em particular os artistas e suas obras: na
qualidade de agentes criadores da vanguarda, utilizadores pioneiros e experimentais
– e desde sempre – de todo e qualquer recurso mecânico ou tecnológico
que possa revelar-se um instrumento precioso na sua expressão e criação artísticas.
Serão, então, alvo da nossa atenção alguns dos mais interessantes criadores
brasileiros da arte de pendor tecnológico. Pois foi precisamente no contexto
das conferências Cyber-Arte-Cultura: a trama das redes, promovidas pela direção
do Museu Vale, celebrando os seus 15 anos de atividade e que aconteceram em
março de 2013, que surgiu o convite para que desenvolvêssemos uma orientação
curatorial – e consequente seleção de artistas e respectivas obras – de recorte
exemplificativo, mas abrangente do que foram, e são hoje, os principais agentes
criadores da arte tecnológica no Brasil. Ao artista capixaba Mauricio Salgueiro
foi reservado, logo de início um lugar de destaque na mostra, considerando o
pioneirismo e a importância que o seu trabalho desde cedo assumiu no panorama
artístico nacional e internacional, apesar de – e também contrariando – um
estranho desconhecimento que persiste ainda hoje em relação à sua obra, inclusive
nos meios artísticos e culturais brasileiros. Encontramos aqui um conjunto
de 22 artistas e 37 obras – resultado de uma escolha bastante difícil – entre muitos
outros que por diversas razões se viram impossibilitados de estar presentes.
Importa reforçar que, no recorte temporal referido, muitos foram os criadores
importantes que se serviram da tecnologia, mecânica ou digital, na sua ação criadora
e produtiva. Apesar da excelente dimensão do espaço expositivo, seria fisicamente
impossível incluir todos. Ficamos assim com uma mostra – entre outras
possíveis – que julgamos representativa da arte tecnológica brasileira. Incluímos
vertentes como a arte cinética e sonora, a videoarte e o mapping, a instalação e a
bioarte, a robótica e a interatividade numa panóplia diversificada e exemplificativa,
ruidosa e colorida, tão ao gosto dos tempos modernos.


Os artistas aqui presentes são: Abraham Palatnik, André Parente, Angela
Detanico & Rafael Lain, Chelpa Ferro, Eduardo Kac, Fernando Velázquez, Floriano
Romano, Leandro Lima & Gisela Motta, Letícia Parente, Marcelo Moscheta,
Mariana Manhães, Marssares, Mauricio Salgueiro, Milton Marques, O Grivo,
Paulo Bruscky, Paulo Nen"idio, Paulo Vivacqua, Pedro Paulo Domingues, Rafael
França, Regina Silveira e Sonia Andrade.



PRIMEIRA SALA – ANOS 60 A 90
A cidade – pioneirismo, experimentação, crítica social


A cidade cedo se revelou como a mais completa e complexa invenção do homem,
berço de todas as descobertas e destino de todas as invenções, caldo profícuo
e criador de todas as correntes e vanguardas, destino de todas as viagens
em procura de enriquecimento financeiro ou cultural, pano de fundo escolhido
para uma vida de possibilidades cumpridas e conquistas realizadas. Mas também,
imediatamente, prisão dourada a encurralar e a reduzir o homem moderno, perdido
numa corrida louca e circular rumo ao dia a dia – produtivo e escravizante,
frenético e infinito – da dura e competitiva realidade urbana. Considerando a
enorme onda contestatária e de contracultura que varreu na década de 1960 todo
o espectro ocidental – à procura de uma alternativa a essa realidade do homem
mecanizado e mero objeto, refém de correntes de produtividade e normalização
impostas, de valores éticos, profissionais e culturais; e tendo em conta o contexto
particular que o Brasil vivia na época – refém de uma ditadura feroz, particularmente
durante os chamados anos de chumbo, entre finais dos anos 60 a meados
da década de 1970 –, é imprescindível sublinhar aqui a atividade artística de alguns
criadores que já nessa época apontavam caminhos, desbravavam conceitos
e iniciavam um percurso – impensável para o homem comum – de inovação inventiva
e artística com forte consciência e crítica política, social, ética, cultural.


Para alguns, serviria a própria realidade urbana que os rodeava – no seu
alto contraste de deslumbramento luminoso modernizado e ruidosa marcha mecanizada;
de multidões (des)ordeiras perdidas no caos cotidiano mas também do
acesso iniciático e aparentemente ilimitado a um admirável mundo novo de possibilidades,
mecanismos e experiências por descobrir –, a cidade; como sumário
criativo, inspirador e revelador, desse trabalho de apontar caminhos e descobrir
amarras. Uma construção ainda inicial, mas firme e decidida, de uma obra e percurso
pertinentes, atentos, inventivos, maravilhosos. Esses artistas se revelariam,
muitos anos depois, visionários verdadeiramente privilegiados na sua releitura
criativa, clara e incisiva, transformadora e paradigmática de uma realidade pós-
-moderna dura e difícil. Uma realidade já claramente formatada num crescente e
circundante domínio uniformizado: tecnológico e artificial, político e social. Um
desafio crucial à individualidade, criatividade e liberdade; fundamentais condições
para a plena existência do indivíduo no espaço contemporâneo.


Mauricio Salgueiro nasceu no Espírito Santo em 1930, partindo aos seis
anos para o Rio de Janeiro. Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes e aperfeiçoou
seus estudos de escultura em metal em Paris e em Londres. Foi professor
em várias escolas, institutos e universidades, no Rio de Janeiro e no Espírito
Santo; participou, a partir de meados dos anos 60, de várias bienais e salões de
arte moderna, no Brasil e no mundo. Pioneiro da arte tecnológica no Brasil, as
suas esculturas sonoras, luminosas e mecânicas logo incorporaram elementos da
realidade urbana, como buzinas e semáforos, movimentos de marcha sincopada
e ruidosa, e o uso de lâmpadas fluorescentes num jogo cromático e mecanizado
de fascínio e beleza. Sempre interativos, seus trabalhos proporcionam ao espectador
uma experiência profunda de expectativa e deslumbramento, através da
brilhante reutilização e ressignificação de elementos do cotidiano, numa nova
forma escultural e plástica, reflexiva e envolvente, de enorme valor artístico.


Incluímos nesta mostra um conjunto representativo da produção do artista,
num total de 10 obras. Elas representam alguns momentos significativos de
um recorte de três décadas de produção, utilizando recursos tecnológicos que,
se hoje nos parecem bem ultrapassados, eram absolutamente inovações naquela
época. A Urbis II (1964), semáforo sonoro incoerente e aleatório, a confundir
instruções num tráfego caótico e irritante; a Vênus androide I (1998), escultura
mecânica cujos movimentos de marcha ruidosa aplicados a um arquétipo feminino
de fertilidade e beleza – feito totem de aço frio – parecem falar da inalcançável
distância que nos separa de um sensível primordial; a Poça (série Vazamentos,
1985), surpreendente hino a um masculino falhado e redundante, plástico e
ôrganico, na sua avermelhada prisão oleosa, imponente e afirmativa; A lâmina
(1969), enorme e ondulante folha de aço reflexivo, paródia meio descontrolada e
barulhenta, ao espelho, nota breve de um ego destruído pela força mecânica que
o imita, distorce e desfigura; a Urbis V (As vizinhas) (1965); em que aquilo que
ali dizemos é escutado em outro lugar, sem que o saibamos e ao vivo, visionária
referência crítica – e tão atual – a questões como a privacidade, o uso perverso da
tecnologia, o poder controlador de um estado que espia seus cidadãos; e as várias
Esculturas luminosas I, III, IV, VII e X (de 1963 a 2011), belas referências cromáticas
de luz e cor aos enormes edifícios que habitam e habitamos – supremos e
sublimes, imóveis e altivos –, os mais elevados e dominantes lugares das nossas
populosas e caóticas cidades modernas. Destas destacaremos a Escultura luminosa
X (1968-2011), em que o interior belo e confuso de fios e fichas coloridas é
deixado a descoberto pelo artista, descoberta em simbólica revelação da vida interior
– desordenada e obscura, revolta e conflituosa –, que alimenta e preenche o âmago vital
de qualquer estrutura. Essa obra forte e metafórica, cheia de beleza e confusão
– e também claramente remetente às enormes construções habitacionais dos
grandes centros urbanos – reúne em simples e sedutora disposição essas duas facetas
fundamentais da realidade tecnológica que nos rodeia: por um lado, uma exterioridade
sedutora e funcional, bela e prática, disponível e aberta; por outro, encerra em
seu interior a teia inescrutável de relações e sobreposições, contaminações
e dispersão, que apenas percebemos assim: simbolicamente apresentadas numa
obra de arte penetrante, significativa, sedutora e envolvente....


...Talvez esse cosmos vivo de Palatnik represente, nesse ambiente expositivo,
o ponto de fuga visual e simbólico, distante, mas desejado: o ambiente urbano
complexo que fomos aqui construindo. A representação poética e ambiciosa de
dimensões e vontades maiores escapam ao seu parco e ruidoso entendimento
e pequenez. Pois na ensandecida vivência da realidade confusa e limitante da
casa e da cidade, o homem procura ainda, no alto exterior, no que ainda não
abarca nem compreende, um sentido maior para esse cotidiano acelerado e redutor.
Algumas obras parecem descrever claramente esse débil estado à mercê
da dura realidade urbana e doméstica (Salgueiro, França e Andrade), a procura
de uma expressão/comunicação íntimas e autênticas (Parente e Bruscky), que
contrariem o automatismo e a limitação – a regulação – impostos pelos meios e
mecanismos então disponíveis (Palatnik, Salgueiro e Silveira). Pois na era da viagem
à Lua e do progresso da ciência, da inovação tecnológica e da produção em
massa e no meio de diversas restrições e convulsões de ordem política e social,
os artistas procuravam, mais à frente e noutras enviesadas direções, diagnosticar
uma sociedade febril e voraz, seus ritmos imparáveis e mecanizados de produção
e consumo, a ausência de padrões de criação e liberdade pensados e aplicados à
frágil e delicada – mas enérgica e expressiva –, escala humana.