Itinerário das Artes Plásticas


Jayme Mauricio. Correio da Manhã, 3 de maio de 1966


A renovação da moderna escultura brasileira, essa ambição duramente castigada durante tantos anos, vai sendo aos poucos alcançada. Não como um movimento, como aconteceu com a arquitetura, a gravura e, num certo sentido, com a pintura, mas através de personalidades criadoras isoladas, cujos exemplos mais vigorosos são os de Lígia Clark e, mais recentemente, Sergio de Camargo. Dois escultores onde encontramos com clareza as virtudes da medida e do sentimento poético que caracteriza a invenção. Mas além dos casos isolados e outros, de escultores mais antigos, preocupados com a continuidade do processo de renovação que iniciaram no passado, vamos encontrar um grupo de jovens em permanente e tensa prontidão frente à arte do futuro, frente ao universo desconhecido, fatigados das experiências vencidas às quais em pouco ou nada podem acrescentar. Não são muitos, mas são corajosos e decididos a penetrar em novas regiões psíquicas e com total liberdade criar seus próprios mitos e suas próprias formas.

Entre esses novos, surge com disposição especial e uma participação quase alarmante o escultor Maurício Salgueiro, recém-chegado ao modernismo, vindo de outras áreas que lhe possibilitam uma longa e, já se vê, proveitosa viagem pela Europa. Não cabe ainda uma análise mais rigorosa do trabalho de escultor tão recente quanto insatisfeito e experimental no trato de uma escultura que se volta para a vitalidade e corporificação dos objetos, escolhe o ferro, objetos inanimados e a luz como matéria. É preciso dar tempo a Maurício Salgueiro e pedir-lhe, também, um pouco de tempo.

Maurício Salgueiro é um obcecado pelo ferro que acha ‘ extremamente nobre, de grande poder plástico e identificador da atitude da sociedade atual, de rudeza e materialismo’. Poderia, talvez, em peças mais antigas, ser classificado no que os escultores tradicionalistas chamam com uma completa ausência de humor a ‘academia do ferro velho’. Rigorosamente original não será embora em suas últimas peças esteja bem evidente a sua definida contribuição pessoal. Mas se tem influências, são das mais saudáveis, das que influenciam em todos os quadrantes, e influenciaram toda a criação artística brasileira. Suas esculturas mais conhecidas, quase sempre ásperas e duras, caracterizam-se nas suas muitas variações pelos princípios mecanísticos e pelo gosto muito em voga da valorização da banalidade dos objetos comuns. Inicialmente preocupado com a paródia do ser humano, por assim dizer, acontecimentos políticos mesmo, caminhou por formas de homens e bichos como veículos de expressão, para finalmente chegar às experiências de uma escultura móvel, socorrida de eletricidade, que focaliza com mordacidade as estridências de luz e som da vida urbana. Foi o que vimos no Salão da Jovem Escultura, onde obteve um primeiro prêmio. Insatisfeito, porém, prosseguiu sua pesquisa.

- A participação que temos na vida dos centros urbanos em que vivemos e que nos vem excitar os vários sentidos através dos seus movimentos em formas, sons, cores e luzes, oferece uma sequência infinita de sensações que a sensibilidade fará refletir na produção de cada um, condicionada evidentemente a uma proporcional interpretação de cada mundo interior.

Com essas palavras Maurício Salgueiro buscou uma identidade maior do redator com a nova face do seu trabalho, já agora francamente inclinado para os problemas de luz e ritmo formulados através de tubos de gás neon, peças que enviou para a VIII Bienal por considerar ser aquela mostra internacional uma competição nitidamente experimental.

- Sendo a arte também o registro sentido do comportamento de determinada sociedade, seria impossível aceitá-la divorciada das características que marcam e definem o existir de um grupo. E toda a atual estrutura mecânica ou mecanizada que se faz cenário, marcará sem dúvida qualquer realização artística que nela venha a aparecer. A cada época corresponde uma linguagem, extraída do viver e pensar de seu povo, e seria falso e incoerente querer expressar-se usando termos formados em outro alfabeto.

Após esse discurso inicial bem formulado o escultor entra diretamente no seu problema atual – a luz. Diz que a cada variação da forma terá percepção uma nova sensação, e a cada variação da luz terá a forma uma nova presença, ou melhor: renova-se a cada iluminação. A luz constituir-se-ia assim no elemento capaz de produzir variações de uma única forma, o que prova serem todas as resultantes sensoriais de uma forma, em melhor análise, determinadas especialmente pela luz.

- Poder-se-iam admitir, pois, dois problemas principais: - prossegue o escultor – ‘resolver uma forma em determinado espaço ao acaso da luz que lhe possa ser emprestada’ ou ‘resolver a luz em determinado espaço em função das formas’ pois tem a luz seu valor artístico além da forma que uma técnica artesanal também a obriga a ter como a qualquer outro objetivo de personalidade definida, dentro de um espaço que, tornado em seu valor absoluto, garante-lhe uma presença plástica e em seu valor relativo lhe proporciona uma situação histórica a representar uma época e um estágio da civilização.

E Maurício Salgueiro equaciona o problema que levantou:
- Situando-se de início sua primeira importância há que considerar toda a sequência de ritmos que podem ser explorados com relação a sua ‘forma-origem’ e a intercomunicação que esta possa ter, ela sua ação, com as do meio ambiente. Se considerarmos sua importância histórica, não só há que notar todo o processo que os desenvolvimentos científico e artístico determinaram até sua geral utilização. Mas em função desta, todo o comportamento e a responsabilidade que lhe devem ser atribuídos no cotidiano viver do elemento humano.